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View Full Version : Transporte de Material Escolar e Perturbações Músculo-Esqueléticas da Região Lombar



Vitor Azevedo
19-02-06, 22:47
A dor lombar é epidémica na população adulta, tendo mais de 60% desta população experienciado este tipo de comprometimento (Harreby, Hesselsoe & Neergaard, 1996; Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003; Mirovsky, Jakim, Halperin & Lev, 2002). A ocorrência de dor lombar em crianças e adolescents varia entre 8% e 84,1% (Balague, Nordin, Skovron, Dutoit, Yee & Waldburger, 1994; Balague, Nordin, Skovron, Dutoit, Pol & Waldburger, 1995; Harreby, Neergaard, Hesselsoe & Kjer, 1995; Kristjansdottir, 1996; Newcomer & Sinaki,1996; Salminen, Erkintalo, Laine & Pentti, 1995; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Taimela, Kujala, Salminen & Viljanen, 1997; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Troussier et al, 1999; Viry, Creveuil & Marcelli, 1999). A ocorrência avaliada depende da população estudada e das definições utilizadas (Van Gent et al, 2003). Segundo Duggleby & Komar (1997), a maior parte dos episódios de dor lombar são de intensidade ligeira. Existe uma preocupação crescente pelos educadores, professores, profissionais de saúde, pais e legisladores no facto de a dor lombar se estar a tornar num sério problema de saúde em crianças em idade escolar devido ao aumento do uso de mochilas pesadas (Wall, Foad & Spears, 2003). O uso de mochilas pesadas é comum na população em idade escolar (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003). Os mesmos autores referem que as crianças nesta idade carregam por vezes mochilas que chegam a pesar 30% a 40% do seu peso corporal. A associação entre dor lombar e o uso de mochilas é controverso na literatura científica.


Prevalência e Factores de Risco da Dor Lombar

A prevalência de dor lombar não-específica aumenta dramaticamente durante a adolescência de menos de 10% na pré-puberdade para 50% em jovens de 15-16 anos (Taimela, Kujala, Salminen & Viljanen, 1997; Burton, Clarke, McClune & Tillotson, 1996). O aumento mais frequente na prevalência de dor lombar ocorre nas raparigas com 12-13 anos e nos rapazes de 13-14 anos (Leboeuf-Yde, Kyvik & Bruun, 1999). Viry et al (1999) observou que este período corresponde à altura salto pubertário. Existe evidência que dor lombar na infância é um importante factor de risco para a existência de dor lombar no adulto (Harreby, Neergaard, Hesselsoe & Kjer, 1995; Brattberg, 1994). A maior parte dos autores reportaram as seguintes associações com dor lombar:
· Género - maior prevalência do sexo feminino - (Viry, Creveuil & Marcelli, 1999; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Balague, Troussier & Salminen, 1999);
· Saúde geral deficitária (Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003);
· Antecedentes familiars de dor lombar (Viry, Creveuil & Marcelli, 1999; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994);
· Perfil Psicológico (Balague, Skovron, Nordin Dutoit, Pol & Waldburguer, 1995; Van Gent, Dols, de Rover, Hira Sing & de Vet, 2003);
· Tempo dispendido sentado ou a ver televisão (Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Grimmer & Williams, 2000; Balague, Dutoit & Waldburger, 1998);
· Peso de mochila elevado (Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Troussier et al, 1999)
· Exposição a carga de mochila (tempo dispendido a suportar cargas) (Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003);
· Força dos flexores lombares aumentada (Newcomer & Sinaki, 1996);
· Elevada taxa de crescimento (Feldman, Shrier, Rossignol & Abenhaim, 2001);
· Encurtamento dos ísquio-tibiais ou quadricípete femoral (Feldman, Shrier, Rossignol & Abenhaim, 2001);
· Lesão da coluna vertebral anterior (Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Troussier et al, 1999);
· Baixa mobilidade fisiológica da coluna lombar (Kujala, Taimela, Oksanen & Salminen, 1997);
· Índice de massa corporal elevada (Harreby et al, 1999; Orvieto, Rand, Lev, Wiener & Nehama, 1994);
· Idade (maior dor lombar em mais idade) (Viry, Creveuil & Marcelli, 1999; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Harreby et al, 1999; Orvieto, Rand, Lev, Wiener & Nehama, 1994).

Embora um estudo sugira que níveis baixos de actividade física estão associados com dor lombar em adolescentes (Salminen, Oksanen, Maki, Pentti & Kujala, 1993), outros estudos revelaram que níveis elevados de actividade física (Newcomer & Sinaki, 1996; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Troussier et al, 1999) e participação em desportos de competição estão associados a dor lombar em adolescentes.

Mochilas e Análise de Marcha / Dificuldade de Locomoção

Realizar marcha com uma carga pesada altera a postura: a tendência é para as crianças se inclinarem para a frente e levantarem a cabeça, como método compensatório (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003). Chansirinukor et al (2001) revelaram que tanto o peso da mochila como o tempo que a carregam influencia a postura a nível cervical e da cintura escapelar. A postura com a cabeça anteriorizada em relação ao resto do corpo torna-se mais exuberante quando se carrega uma mochila, especialmente se o seu peso for elevado. Mochilas com 15% do peso corporal demonstraram ser demasiado pesadas para a manutenção da postura em pé em adolescentes. Cottalorda et al (2003) analisaram o efeito de diferentes modos de carregar mochilas na cinética da marcha em crianças. Quarenta e uma crianças, com media de 12 anos, participaram neste estudo. O peso médio foi de 40 kg. As 3 fases consistiam em andar a 3,5 km/h, primeiro sem mochila, e depois com uma mochila de 10 kg, num ombro ou em ambos os ombros. Quando as crianças carregaram a mochila num ombro e depois em ambos os ombros, andaram com maiores “strides” (tempo entre dois contactos consecutivos de calcanhar no chão), “stance” (parte do ciclo de marcha em que o pé está em contacto com o chão) e “double stance” (tempo em que ambos os pés estão em contacto com o chão), em comparação com andar sem mochila. Estes resultados foram suportados por Hong and Brueggemann (2000) e Kinoshita (1985), que observaram que o período de apoio com ambos os pés aumenta significativamente à medida que o peso da mochila aumenta. Este facto foi atribuído à necessidade de estabilidade quando é suportada carga (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003; Cottalorda et al, 2003). Cottalorda et al (2003) observou que carregar uma mochila de 10 kg num só ombro provoca um desequílibrio e que, após a passada, as crianças necessitaram de maior força propulsiva para readquirir o equilíbrio. Carregar uma mochila de 10 kg com apenas uma tira também induz marcha assimétrica. É interessante constatar que esta marcha assimétrica não é aparente com mochilas de 2 alças. Cottalorda et al (2003) conclui que carregar uma mochila de 10 kg provoca uma diferença na cinética da marcha, e que as crianças devem usar a mochila em ambos os ombros, em vez de usarem uma mochila com apenas uma alça.
Pascoe et al (1997) investigaram o impacto das mochilas em 10 crianças entre os 10 e os 13 anos, utilizando mensuração da postura estática e da cinemática da marcha. As crianças participaram nos testes sob 4 condições: sem mochila, com mochila de uma alça, duas alças, e saco desportivo de uma alça. Estes autores constataram que as mochilas de só uma tira causam uma elevação do ombro e curvatura da coluna para fora do peso da mochila. No seu estudo, não houve alteração significativa da elevação do ombro de uma posição horizontal e do desvio da coluna lateralmente entre mochilas de duas alças e sem uso de mochila. No entanto, os sacos desportivos promoveram uma curvatura lateral da coluna e elevação do ombro, enquanto as mochilas de 2 alças reduziram significativamente as consequências de carregar uma mochila. Pascoe et al (1997) concluiram que o stress físico diário associado ao uso de sacos desportivos num ombro altera significativamente a postura e a marcha dos jovens. Estas alterações da coluna vertebral podem ser responsáveis pela dor lombar perceptível (51%) reportada na população deste estudo.

Peso das mochilas, dor lombar e deformidade estrutural

A dor lombar na infância prediz dor lombar no adulto? Existe pouca informação longitudinal disponível. Harreby et al (1995) usaram um questionário para recolher informação de um total de 578 adultos de 38 anos que tinham participado num estudo escolar 25 anos antes. Em utentes com história de dor lombar na infância, o odds ratio (OR) para a dor lombar no adulto foi de 2.23 (intervalo de confiança: 1.00-4.97). Mirovsky et al (2002) obteve resultados semelhantes: 62% das crianças que do seu estudo prospectivo tiveram queixas de dor após a maturidade.
Os profissionais de saúde devem prestar atenção cuidada à identificação e intervenção sobre os factores de risco da dor lombar. Ocorrem alterações posturais quando uma pessoa carrega uma mochila pesada (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003). Este facto aumenta a preocupação, segundo o mesmo autor, que a escoliose ou cifose possa ser causada ou agravada pelo uso de mochilas. Embora adolescentes com dor lombar apresentem um risco significativo de experienciar dor lombar no adulto, não existe evidência que as deformidades estruturais da coluna possam resultar do uso de mochilas (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003; Wall, Foad & Spears, 2003).
O peso das mochilas é um problema major. A investigação ainda não idenficou um peso de mochilas específico, acima do qual aumente o risco de a criança experienciar dor lombar. Mochilas com mais de 10% do peso corporal demonstraram aumentar o consumo de energia (Hong, Wong & Robinson, 2000), aumentar a inclinação do tronco para a frente (Hong & Brueggermann, 2000; Pascoe et al, 1997), e diminuir os volumes pulmonares (Lai & Jones, 2001).
Hong e Brueggemann (2000) examinaram o padrão de marcha, frequência cardíaca e pressão arterial em rapazes de 10 anos com mochilas de 0% (controlo), 10%, 15% e 20% do seu próprio peso corporal enquanto realizavam marcha. Não houve diferenças significativas entre os parâmetros avaliados entre os 10% e os 0% de carga nas mochilas. No entanto, foram encontradas diferenças significativas entre 0% e 15% ou 20%, com um aumento significativo da inclinação à frente do tronco. Estes autores concluiram que o peso das mochilas não deve exceder 10% do peso corporal em rapazes de 10 anos. Estes resultados coincidem com os encontrados anteriormente por Malhotra e Sen Gupta (1965).
A média de peso das mochilas nos EUA foi de 7,7kg, o que representou 17% da média do peso corporal dos estudantes (Leboeuf-Yde, 1999; Pascoe et al, 1997). Os estudantes de Hong Kong carregam mochilas que pesam aproximadamente 20% do seu peso corporal (Hong e Brueggemann, 2000). O limite recomendado de peso de mochilas para adultos fisicamente saudáveis é 30% (Szpalski et al, 2000). Das crianças italianas em idade escolar, 34,8% excede regularmente este limite (Negrini, Carabalona & Sibilla, 1999). No estudo de Viry et al (1999), a media do peso das mochilas foi de 9,6 kg, que corresponde a 19,2% da media do peso das crianças, e 49% das crianças carregavam mochilas que pesavam mais de 20% do seu peso corporal. Estes autores referiram que carregar uma mochila com mais de 20% do peso corporal de quem a carrega está significativamente associado a dor lombar no ultimo ano e com dor lombar que requereu visita médica.
Num estudo transversal de 1126 crianças, entre os 12 e os 18 anos, Sheir-Neiss et al (2003) referiram que o uso de mochilas durante os dias de escola e o peso das mochilas estão independentemente associados com dor lombar. No entanto, neste estudo, foi encontrada maior probabilidade de os adolescentes com dor lombar carregarem mochilas mais pesadas e a maior frequência do seu uso em dias lectivos. Foi verificado que adolescentes sem dor lombar tinham maior probabilidade de se encontrar em escolas que baniam o uso de mochilas entre as aulas.
Negrini e Carabalona (2002) encontraram uma associação entre dor lombar e o tempo dispendido a carregar as mochilas, mas não entre dor lombar e o peso das mochilas. Viry et al (1999) encontraram associação entre dor lombar e estudantes que se deslocavam a pé de e para a escola, mas apenas no caso de as mochilas terem mais de 20% do peso corporal. Wall et al (2003) verificaram que apenas 0,3% das crianças que requeriram avaliação de especialistas sobre a sua dor lombar atribuiram a sua dor ao uso de mochila, e muito poucas sentiram que a mochila piorasse a sua dor.

Design das mochilas, Transporte de Carga e Prevenção

A forma como a mochila é carregada pode ter influência na ocorrência de dor lombar (Troussier et al, 1994). Mochilas utilizadas apenas num lado ou mal posicionadas podem enfraquecer ou danificar a postura (Voll & Klimt, 1977). No estudo de Viry et al (1999), dor lombar que leve a absentismo escolar ou actividades desportivas foi encontrada em 50% dos utentes que carregavam as suas mochilas à mão vs. 11,5% dos utentes que as utilizariam aos ombros. As crianças utilizam frequentemente as suas mochilas em apenas uma alça: segundo o estudo de Cottalorda et al (2003), 76% das crianças utilizariam frequentemente as suas mochilas deste modo. Segundo Pascoe et al (1997), este valor seria de 73%. No entanto, num estudo de Sheir-Neiss et al (2003), a maior parte dos alunos (87.6%) utilizariam as suas mochilas utilizando ambas as alças. Este autor não encontrou diferença significativa nas queixas de dor lombar entre crianças que usavam apenas uma alça ou os que usavam duas. No entanto, carregar a mochila em ambos os ombros é, biomecanicamente, a melhor forma de o fazer (Troussier et al, 1994; Cottallorda et al, 2003; Pascoe et al, 2003; Malhotra & Sen Gupta, 1965).

Carlinha
23-02-06, 08:58
Muito interessante...

Juliana Medeiros
09-04-08, 21:40
A dor lombar é epidémica na população adulta, tendo mais de 60% desta população experienciado este tipo de comprometimento (Harreby, Hesselsoe & Neergaard, 1996; Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003; Mirovsky, Jakim, Halperin & Lev, 2002). A ocorrência de dor lombar em crianças e adolescents varia entre 8% e 84,1% (Balague, Nordin, Skovron, Dutoit, Yee & Waldburger, 1994; Balague, Nordin, Skovron, Dutoit, Pol & Waldburger, 1995; Harreby, Neergaard, Hesselsoe & Kjer, 1995; Kristjansdottir, 1996; Newcomer & Sinaki,1996; Salminen, Erkintalo, Laine & Pentti, 1995; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Taimela, Kujala, Salminen & Viljanen, 1997; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Troussier et al, 1999; Viry, Creveuil & Marcelli, 1999). A ocorrência avaliada depende da população estudada e das definições utilizadas (Van Gent et al, 2003). Segundo Duggleby & Komar (1997), a maior parte dos episódios de dor lombar são de intensidade ligeira. Existe uma preocupação crescente pelos educadores, professores, profissionais de saúde, pais e legisladores no facto de a dor lombar se estar a tornar num sério problema de saúde em crianças em idade escolar devido ao aumento do uso de mochilas pesadas (Wall, Foad & Spears, 2003). O uso de mochilas pesadas é comum na população em idade escolar (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003). Os mesmos autores referem que as crianças nesta idade carregam por vezes mochilas que chegam a pesar 30% a 40% do seu peso corporal. A associação entre dor lombar e o uso de mochilas é controverso na literatura científica.


Prevalência e Factores de Risco da Dor Lombar

A prevalência de dor lombar não-específica aumenta dramaticamente durante a adolescência de menos de 10% na pré-puberdade para 50% em jovens de 15-16 anos (Taimela, Kujala, Salminen & Viljanen, 1997; Burton, Clarke, McClune & Tillotson, 1996). O aumento mais frequente na prevalência de dor lombar ocorre nas raparigas com 12-13 anos e nos rapazes de 13-14 anos (Leboeuf-Yde, Kyvik & Bruun, 1999). Viry et al (1999) observou que este período corresponde à altura salto pubertário. Existe evidência que dor lombar na infância é um importante factor de risco para a existência de dor lombar no adulto (Harreby, Neergaard, Hesselsoe & Kjer, 1995; Brattberg, 1994). A maior parte dos autores reportaram as seguintes associações com dor lombar:
· Género - maior prevalência do sexo feminino - (Viry, Creveuil & Marcelli, 1999; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Balague, Troussier & Salminen, 1999);
· Saúde geral deficitária (Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003);
· Antecedentes familiars de dor lombar (Viry, Creveuil & Marcelli, 1999; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994);
· Perfil Psicológico (Balague, Skovron, Nordin Dutoit, Pol & Waldburguer, 1995; Van Gent, Dols, de Rover, Hira Sing & de Vet, 2003);
· Tempo dispendido sentado ou a ver televisão (Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Grimmer & Williams, 2000; Balague, Dutoit & Waldburger, 1998);
· Peso de mochila elevado (Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Troussier et al, 1999)
· Exposição a carga de mochila (tempo dispendido a suportar cargas) (Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003);
· Força dos flexores lombares aumentada (Newcomer & Sinaki, 1996);
· Elevada taxa de crescimento (Feldman, Shrier, Rossignol & Abenhaim, 2001);
· Encurtamento dos ísquio-tibiais ou quadricípete femoral (Feldman, Shrier, Rossignol & Abenhaim, 2001);
· Lesão da coluna vertebral anterior (Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Troussier et al, 1999);
· Baixa mobilidade fisiológica da coluna lombar (Kujala, Taimela, Oksanen & Salminen, 1997);
· Índice de massa corporal elevada (Harreby et al, 1999; Orvieto, Rand, Lev, Wiener & Nehama, 1994);
· Idade (maior dor lombar em mais idade) (Viry, Creveuil & Marcelli, 1999; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Sheir-Neiss, Kruse, Rahman, Jacobson & Pelli, 2003; Harreby et al, 1999; Orvieto, Rand, Lev, Wiener & Nehama, 1994).

Embora um estudo sugira que níveis baixos de actividade física estão associados com dor lombar em adolescentes (Salminen, Oksanen, Maki, Pentti & Kujala, 1993), outros estudos revelaram que níveis elevados de actividade física (Newcomer & Sinaki, 1996; Troussier, Davoine, de Gaudemaris, Fauconnier & Phelip, 1994; Troussier et al, 1999) e participação em desportos de competição estão associados a dor lombar em adolescentes.

Mochilas e Análise de Marcha / Dificuldade de Locomoção

Realizar marcha com uma carga pesada altera a postura: a tendência é para as crianças se inclinarem para a frente e levantarem a cabeça, como método compensatório (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003). Chansirinukor et al (2001) revelaram que tanto o peso da mochila como o tempo que a carregam influencia a postura a nível cervical e da cintura escapelar. A postura com a cabeça anteriorizada em relação ao resto do corpo torna-se mais exuberante quando se carrega uma mochila, especialmente se o seu peso for elevado. Mochilas com 15% do peso corporal demonstraram ser demasiado pesadas para a manutenção da postura em pé em adolescentes. Cottalorda et al (2003) analisaram o efeito de diferentes modos de carregar mochilas na cinética da marcha em crianças. Quarenta e uma crianças, com media de 12 anos, participaram neste estudo. O peso médio foi de 40 kg. As 3 fases consistiam em andar a 3,5 km/h, primeiro sem mochila, e depois com uma mochila de 10 kg, num ombro ou em ambos os ombros. Quando as crianças carregaram a mochila num ombro e depois em ambos os ombros, andaram com maiores “strides” (tempo entre dois contactos consecutivos de calcanhar no chão), “stance” (parte do ciclo de marcha em que o pé está em contacto com o chão) e “double stance” (tempo em que ambos os pés estão em contacto com o chão), em comparação com andar sem mochila. Estes resultados foram suportados por Hong and Brueggemann (2000) e Kinoshita (1985), que observaram que o período de apoio com ambos os pés aumenta significativamente à medida que o peso da mochila aumenta. Este facto foi atribuído à necessidade de estabilidade quando é suportada carga (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003; Cottalorda et al, 2003). Cottalorda et al (2003) observou que carregar uma mochila de 10 kg num só ombro provoca um desequílibrio e que, após a passada, as crianças necessitaram de maior força propulsiva para readquirir o equilíbrio. Carregar uma mochila de 10 kg com apenas uma tira também induz marcha assimétrica. É interessante constatar que esta marcha assimétrica não é aparente com mochilas de 2 alças. Cottalorda et al (2003) conclui que carregar uma mochila de 10 kg provoca uma diferença na cinética da marcha, e que as crianças devem usar a mochila em ambos os ombros, em vez de usarem uma mochila com apenas uma alça.
Pascoe et al (1997) investigaram o impacto das mochilas em 10 crianças entre os 10 e os 13 anos, utilizando mensuração da postura estática e da cinemática da marcha. As crianças participaram nos testes sob 4 condições: sem mochila, com mochila de uma alça, duas alças, e saco desportivo de uma alça. Estes autores constataram que as mochilas de só uma tira causam uma elevação do ombro e curvatura da coluna para fora do peso da mochila. No seu estudo, não houve alteração significativa da elevação do ombro de uma posição horizontal e do desvio da coluna lateralmente entre mochilas de duas alças e sem uso de mochila. No entanto, os sacos desportivos promoveram uma curvatura lateral da coluna e elevação do ombro, enquanto as mochilas de 2 alças reduziram significativamente as consequências de carregar uma mochila. Pascoe et al (1997) concluiram que o stress físico diário associado ao uso de sacos desportivos num ombro altera significativamente a postura e a marcha dos jovens. Estas alterações da coluna vertebral podem ser responsáveis pela dor lombar perceptível (51%) reportada na população deste estudo.

Peso das mochilas, dor lombar e deformidade estrutural

A dor lombar na infância prediz dor lombar no adulto? Existe pouca informação longitudinal disponível. Harreby et al (1995) usaram um questionário para recolher informação de um total de 578 adultos de 38 anos que tinham participado num estudo escolar 25 anos antes. Em utentes com história de dor lombar na infância, o odds ratio (OR) para a dor lombar no adulto foi de 2.23 (intervalo de confiança: 1.00-4.97). Mirovsky et al (2002) obteve resultados semelhantes: 62% das crianças que do seu estudo prospectivo tiveram queixas de dor após a maturidade.
Os profissionais de saúde devem prestar atenção cuidada à identificação e intervenção sobre os factores de risco da dor lombar. Ocorrem alterações posturais quando uma pessoa carrega uma mochila pesada (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003). Este facto aumenta a preocupação, segundo o mesmo autor, que a escoliose ou cifose possa ser causada ou agravada pelo uso de mochilas. Embora adolescentes com dor lombar apresentem um risco significativo de experienciar dor lombar no adulto, não existe evidência que as deformidades estruturais da coluna possam resultar do uso de mochilas (Mackenzie, Sampath, Kruse & Sheir-Neiss, 2003; Wall, Foad & Spears, 2003).
O peso das mochilas é um problema major. A investigação ainda não idenficou um peso de mochilas específico, acima do qual aumente o risco de a criança experienciar dor lombar. Mochilas com mais de 10% do peso corporal demonstraram aumentar o consumo de energia (Hong, Wong & Robinson, 2000), aumentar a inclinação do tronco para a frente (Hong & Brueggermann, 2000; Pascoe et al, 1997), e diminuir os volumes pulmonares (Lai & Jones, 2001).
Hong e Brueggemann (2000) examinaram o padrão de marcha, frequência cardíaca e pressão arterial em rapazes de 10 anos com mochilas de 0% (controlo), 10%, 15% e 20% do seu próprio peso corporal enquanto realizavam marcha. Não houve diferenças significativas entre os parâmetros avaliados entre os 10% e os 0% de carga nas mochilas. No entanto, foram encontradas diferenças significativas entre 0% e 15% ou 20%, com um aumento significativo da inclinação à frente do tronco. Estes autores concluiram que o peso das mochilas não deve exceder 10% do peso corporal em rapazes de 10 anos. Estes resultados coincidem com os encontrados anteriormente por Malhotra e Sen Gupta (1965).
A média de peso das mochilas nos EUA foi de 7,7kg, o que representou 17% da média do peso corporal dos estudantes (Leboeuf-Yde, 1999; Pascoe et al, 1997). Os estudantes de Hong Kong carregam mochilas que pesam aproximadamente 20% do seu peso corporal (Hong e Brueggemann, 2000). O limite recomendado de peso de mochilas para adultos fisicamente saudáveis é 30% (Szpalski et al, 2000). Das crianças italianas em idade escolar, 34,8% excede regularmente este limite (Negrini, Carabalona & Sibilla, 1999). No estudo de Viry et al (1999), a media do peso das mochilas foi de 9,6 kg, que corresponde a 19,2% da media do peso das crianças, e 49% das crianças carregavam mochilas que pesavam mais de 20% do seu peso corporal. Estes autores referiram que carregar uma mochila com mais de 20% do peso corporal de quem a carrega está significativamente associado a dor lombar no ultimo ano e com dor lombar que requereu visita médica.
Num estudo transversal de 1126 crianças, entre os 12 e os 18 anos, Sheir-Neiss et al (2003) referiram que o uso de mochilas durante os dias de escola e o peso das mochilas estão independentemente associados com dor lombar. No entanto, neste estudo, foi encontrada maior probabilidade de os adolescentes com dor lombar carregarem mochilas mais pesadas e a maior frequência do seu uso em dias lectivos. Foi verificado que adolescentes sem dor lombar tinham maior probabilidade de se encontrar em escolas que baniam o uso de mochilas entre as aulas.
Negrini e Carabalona (2002) encontraram uma associação entre dor lombar e o tempo dispendido a carregar as mochilas, mas não entre dor lombar e o peso das mochilas. Viry et al (1999) encontraram associação entre dor lombar e estudantes que se deslocavam a pé de e para a escola, mas apenas no caso de as mochilas terem mais de 20% do peso corporal. Wall et al (2003) verificaram que apenas 0,3% das crianças que requeriram avaliação de especialistas sobre a sua dor lombar atribuiram a sua dor ao uso de mochila, e muito poucas sentiram que a mochila piorasse a sua dor.

Design das mochilas, Transporte de Carga e Prevenção

A forma como a mochila é carregada pode ter influência na ocorrência de dor lombar (Troussier et al, 1994). Mochilas utilizadas apenas num lado ou mal posicionadas podem enfraquecer ou danificar a postura (Voll & Klimt, 1977). No estudo de Viry et al (1999), dor lombar que leve a absentismo escolar ou actividades desportivas foi encontrada em 50% dos utentes que carregavam as suas mochilas à mão vs. 11,5% dos utentes que as utilizariam aos ombros. As crianças utilizam frequentemente as suas mochilas em apenas uma alça: segundo o estudo de Cottalorda et al (2003), 76% das crianças utilizariam frequentemente as suas mochilas deste modo. Segundo Pascoe et al (1997), este valor seria de 73%. No entanto, num estudo de Sheir-Neiss et al (2003), a maior parte dos alunos (87.6%) utilizariam as suas mochilas utilizando ambas as alças. Este autor não encontrou diferença significativa nas queixas de dor lombar entre crianças que usavam apenas uma alça ou os que usavam duas. No entanto, carregar a mochila em ambos os ombros é, biomecanicamente, a melhor forma de o fazer (Troussier et al, 1994; Cottallorda et al, 2003; Pascoe et al, 2003; Malhotra & Sen Gupta, 1965).