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View Full Version : Fisioterapia vs aconselhamento



Vitor Azevedo
06-10-04, 01:03
Caros colegas,

Com a evolução da Fisioterapia e dos Fisioterapeutas, muita ênfase se dá, e cada vez mais, à componente técnica, esquecendo outras áreas. Como disse o Ft. Eduardo Cruz na última aula (se aí andar, um abraço! :) ), muitas vezes, preocupamo-nos com aprender técnicas mais evoluídas, mas não nos preocupamos se serão *realmente* mais efectivas do ponto de vista do utente! Este Estudo (http://bmj.bmjjournals.com/cgi/reprint/329/7468/708?maxtoshow=&HITS=10&hits=10&RESULTFORMAT=1&titl e=physiotherapy&andorexacttitle=and&andorexacttitl eabs=and&andorexactfulltext=and&searchid=109701839 6279_25584&stored_search=&FIRSTINDEX=0&sortspec=re levance&fdate=1/1/2004&resourcetype=1,2,3,4) é um exemplo disso. Basicamente, a amostra baseia-se em pacientes maiores de 18 anos com dor lombar há mais de 6 semanas, sendo excluídos pacientes com condições mais severas. O grupo experimental recebe um folheto de aconselhamento e recebe tratamento fisioterapêutico, enquanto o grupo de controle recebe o mesmo folheto e apenas uma sessão de aconselhamento. Quanto aos resultados.... Bem, precocemente, o grupo experimental refere uma evolução mais rápida. Quanto a longo prazo, não são referidas diferenças significativas entre ambos os grupos. Bem, no mínimo, creio que nos deixa a pensar um pouco sobre se estamos mesmo a fazer fisioterapia efectiva em alguns casos.

Contudo, e em jeito de raciocínio em "voz alta", faz-me reflectir sobre o conflito tão actual "evidence based" vs "resultados analíticos", mas seria uma conversa de horas e digna de livro.

Também, em relação ao mesmo artigo, reparei que 72% dos paciente fizeram tratamento com low "velocity spinal joint mobilisation techniques" e 94% "lumbar spine mobility and abdominal strengthening exercises". Apesar de ainda não se ter percebido bem quais os factores estruturais *realmente* relevantes na avaliação destas condições, dificultando assim a investigação (em: Clinical Outcome Measures for Disorders of the Lumbar Spine - David Thompson, B. Phty, M. Phty (Manip), MPA, MCSP, MMACP), este tipo de tratamentos tem algum apoio em literatura (em: The effect of modifying patient-preferred spinal movement and alignment during symptom testing in patients with low back pain: a preliminary report. - Van Dillen LR, Sahrmann SA, Norton BJ, Caldwell CA, McDonnell MK, Bloom N.; The use and reported effects of mobilization with movement techniques in low back pain management; a cross-sectional descriptive survey of physiotherapists in Britain -Konstantinou K, Foster N, Rushton A, Baxter D., entre outros), enquanto que em Portugal, e não sei se noutros lugares tb, se vive tanto do típico "calor húmido, massagem e ultra-som... Se é o movimento que demonstra melhorias mais significativas no tratamento desta condição, assim como o aconselhamento, porque não a existência de mais classes, por exemplo? Creio que será pergunta retórica de maçarico, mas... aqui fica.

P.S: peço desculpa pelo testamento! :)

Adérito Seixas
06-10-04, 08:48
Não peças desculpa pelo testamento, só é pena ter que utilizar a barra de deslocação lateral para poder ler o texto :D
Em relação ao estudo ele leva-nos realmente a pensar se os tratamentos que fazemos são os mais eficazes... o movimento e o fortalecimento da musculatura estabilizadora do ráquis é na minha opinião das melhores coisinhas no tratamento da dor lombar e mesmo que o calor húmido e a massagem (o que é bom nem que seja pelos efeitos "psicológicos") sejam as únicas coisas prescritas eu não limito a minha intervenção a isso e adiciono sempre a mobilização e o fortalecimento.
Nos EUA o Fisioterapeuta trabalha muito com o aconselhamento, ele fornece ao utente um guia de exercícios para fazer em casa e no ginásio e existe um profissional que se assegura que os exercícios são bem executados, e os resultados aparecem. Em Portugal ainda não trabalhamos muito com a prática baseada na evidência, na maior parte das clínicas é chapa 5 para toda a gente. Nesse aspecto ainda temos que evoluir MUITO.
O uso de classes tem as suas vantagens mas também tem desvantagens devido à dificuldade de uniformização de pacientes para além de que é dificil encontrar 2 pacientes que se encontrem no mesmo "patamar" em termos de evolução. Os exercícios devem ser personalizados e constantemente avaliados pelo fisioterapeuta. Se o paciente deve fazer os exercícios de fortalecimento apenas com o movimento activo, se com o theraband, se com alteres, etc... são muitos factores para incluir este tipo de pacientes em classes. Mas a vossa experiencia pode ter outros resultados, exponham-nos aqui ;)

Fysio
06-10-04, 09:58
Corrigi o post do Vitor para não se ter que usar a barra de deslocação lateral.

Vitor, veja como fiz clicando no botão "Edit" no canto superior direito do seu post.

Vitor Azevedo
06-10-04, 13:58
Fysio, dankë :)

Manbeleth, com os meus pacientes, tenho tido bons resultados com exercícios terapêuticos segundo a visão de Mackenzie para estas condições. O fortalecimento da região da ráquis por si só não traz um equilíbrio muscular tão necessário nestas condições, veja-se a incidência de dor lombar em culturistas, que, assim, *teria* de ser 0, ou próximo disso. O problema muitas vezes reside no que disseste, relativamente ao aconselhamento, e na importância vital que temos na informação à população como método de prevenção das ex-lombalgias não-específicas, actuais PMERL. Se pensarmos em Laura Mitchell, por exemplo, poderemos associar muitas vezes alterações musculares avaliáveis por nós, a retracções musculares e outros factores semelhantes derivados também do stress ou anos de "más" posturas. Assim, creio que não poderemos esquecer a incidência dos exercícios terapêuticos sobre o alongamento dos tecidos que avaliámos anteriormente. Para tal, creio que técnicas como as de Mackenzie, ou mesmo o RPG, serão em princípio eficazes. Fiz "skip" aos comprometimentos nervosos e perturbações de origem não-musculo-esquelética, senão voltaria a escrever um testamento.

Tenciono começar a desenvolver no meu local de trabalho classes para PMERL. Logo que tenha resultados visíveis, apresentá-los-ei aqui. Também deixarei o programa de exercícios que irei executar, assim como o folheto que irei entregar.

Adérito Seixas
06-10-04, 16:35
veja-se a incidência de dor lombar em culturistas

O problema destes desportistas é que não fazem treinos equilibrados... eles fortalecem mais os extensores e esquecem-se dos flexores. Um culturista "bem treinado" pode não ter tantos problemas, mas essa é uma discução de outro tópico.

Concordo plenamente que o RPG e métodos afins são espectaculares para o tratamento deste tipo de patologias, a tendência da ginástica postural está a mudar e nós temos que a acompanhar.

mfonseca
08-10-04, 03:36
Tu queres ver que o Manbeleth vai-me dar razão. Não me acredito.
Concordo plenamente com as vossas visões sobre a Reeducação Postural Global. Muito do futuro da fisioterapia passará pela aplicação dessas técnicas em fase pré-lesão, como forma de prevenção. Uma coisa é o que vem nos livros, outra é o que se faz (e bem sabem do que falo).
Relacionado com este tópico, no fórum Fisioterapia Desportiva, têm as limitações financeiras e afins na fisioterapia desportiva.

Um grande abraço,
Marco Fonseca

Adérito Seixas
08-10-04, 09:59
As nossas opiniões nunca divergiram em relação ao assunto, mas para falar disso temos o tópico já aberto ;)