View Full Version : LER
Venho abrir este fórum com um tema que me parece bem discutível.
As Lesões de Stress Repetitivo (LER). Quais serão as implicações anatomo-fisiológicas dos esforços repetitivos que justifiquem, por exemplo as tenossinovites de Quervin?
Marco Fonseca
Tendinites e Tenossinovites:
O que são?
São doenças que resultam do funcionamento inadequado dos tendões (os tendões são feixes de fibras que fixam os músculos aos ossos, transferindo a força muscular ao osso para produzir movimentos articulares).
Estas doenças podem envolver dois tipos de tendões: os que não se encontram envolvidos por bainhas tendinosas (por ex. os do braço) e os que funcionam dentro de limites mais estreitos, envolvidos por bainhas (por ex. da mão).
Tendinites
São inflamações dos tendões “livres”, isto é, os que não se encontram envolvidos em bainhas tendinosas.
A execução de tarefas com movimentos repetitivos excessivos e/ou prolongados, o excesso de força, as posturas inadequadas ou estáticas prolongadas, a vibração, todos podem provocar roturas mais ou menos importantes nas fibras dos tendões. Estas alterações desencadeiam respostas inflamatórias. Com o decorrer do tempo, os tendões inflamados tornam-se mais espessos e irregulares e, se mantidas as condições adversas, podem tornar-se permanentemente fragilizados.
Tenossinovites
As tenossinovites são inflamações das bainhas tendinosas.
As paredes internas destas bainhas produzem, em condições normais, um fluido lubrificante (chamado líquido sinovial) que lubrifica o movimento dos tendões.
A execução de tarefas com movimentos repetitivos excessivos e/ou prolongados, o excesso de força, as posturas inadequadas ou estáticas prolongadas, a vibração, todos podem provocar alterações na produção do líquido sinovial: redução do seu volume ou alteração das suas características. Quando isto acontece, os tendões provocam fricção nas bainhas tendinosas, que inflamam e se tornam mais espessas. Por sua vez, essas alterações dificultam ainda mais o funcionamento dos tendões.
Quais as localizações mais frequentemente atingidas?
Ombro:[list:14c0f3b47b]
Tendinite bicipital: inflamação do tendão do bicípite (músculo que produz a flexão do antebraço sobre o braço);
Tendinite da coifa dos rotadores: inflamação dos tendões que fazem o braço rodar e o ajudam a levantar;
Cotovelo:
Epicondilite (“cotovelo de tenista”): inflamação do tendão que fixa músculos do antebraço a uma projecção óssea do úmero, logo acima do cotovelo;
Punho e mão:
Tendinite dos flexores: inflamação dos tendões da região da palma da mão e punho;
Tendinite dos extensores: inflamação dos tendões das costas da mão e punho;
Tenossinovite dos flexores: inflamação das bainhas tendinosas da região da palma da mão e punho;
Tenossinovite dos extensores: inflamação das bainhas tendinosas das costas da mão e punho;
Doença de De Quervain: inflamação das bainhas tendinosas da base do polegar;
[/list:u:14c0f3b47b]Quais são os sintomas?
A queixa principal é a dor localizada à região afectada. Os sinais físicos podem incluir dor à palpação da zona, edema (“inchaço”), vermelhidão e limitação dos movimentos.
Qual o tratamento?
Quase sempre de natureza conservadora, só raramente cirúrgico.
É fundamental reduzir as actividades que ocasionam as lesões. A utilização de anti-inflamatórios reduz a dor de forma eficaz. Outros tratamentos passam pela aplicação local de gelo ou calor, massagens, exercícios de extensão/flexão, utilização de ultra-sons, etc.
Como se previnem?
Conhecidos os factores de risco – execução de tarefas repetitivas prolongadas, com excesso de força, posturas inadequadas ou estáticas prolongadas, vibrações – há que os reduzir ou, se possível, eliminar.
Torna-se igualmente necessário adoptar boas práticas de trabalho, bem como utilizar material e equipamentos adequados.
A instrução e o treino do pessoal são fundamentais.
Os momentos de pausa e descanso são peças fundamentais na prevenção da ocorrência deste tipo de lesões.
in Ordem dos Médicos Dentistas (www.omd.pt (http://shst.omd.pt/textos/?file=texto&codt=37))
Adérito Seixas
05-10-04, 18:43
Lesões de esforço repetitivo... um bom tema ;)
Um dos problemas desse tipo de lesões é a tendência para a cronicidade se o tratamento inicial não for adequado. Segundo um artigo recente, existem, muitos mecanismos fisiológicos que levam a uma resposta nociceptiva. Nos casos de dor persistente, os sinais do SNC podem levar a um caso de hipersensibilidade, ou resposta central sensitizada. Para além das alterações electrofisiológicas que levam a situação de hipersensibilidade ocorrem também respostas neuro-imunes que contriuem ainda mais para o processo de sensitização central.Os achados relativos à neuroimunidade são formas recentes de abordar mecanismos de dor persistente (Winkelstein, 2004)
Vitor Santos
08-02-05, 17:00
Para mim o ênfase nas LER terá de ser posto na seguinte forma de actuar :
I - Análise do "gesto"
II - Descobrir quais são os aspectos nocivos do mesmo
III- Remoção ou limitação dos aspectos nocivos
IV- Aplicação de todos os nossos Skills ( Electro, Crio,TEC,s, etc. etc. )
Só para dar um exemplo é escusado tentarmos tratar as cervicobraquialgias de uma pessoa que trabalhe com computadores ou com máquinas onde faça uso de teclado se ela não souber dactilografar e estiver oito horas por dia com a sua cervical em "acifosamento" e ainda por cima a fazer nessa posição rotação lateral.
Pode ter o melhor ergonomista do mundo que lhe desenhe o melhor local de trabalho, que não se safa é de certeza mais uma pessoa para as nossas mãozinhas.
Vejam este artigo que encontrei!
Um abraço,
Marco Fonseca
Adérito Seixas
21-03-05, 13:00
Interessante o estudo acerca dos teclados, apesar das limitações que apresenta.
O teclado "vencedor" não é definitivamente o que tenho em casa... tenho que ponderar a sua aquisição :lol:
Pode ter o melhor ergonomista do mundo que lhe desenhe o melhor local de trabalho, que não se safa é de certeza mais uma pessoa para as nossas mãozinhas.
Tens razão Vitor, se bem que o automatismo do gesto é um dos factopres de risco para as LER... mas partindo do princípio que o automatismo se instala sendo utilizada uma forma/postura ergonomicamente correcta o risco até diminui.
Caro Adérito,
Se eu usasse um teclado desses ficaria mais torto do que já sou. :lol:
Já ouviram falar de individualidade e especificidade. Pois é...
Marco Fonseca
Adérito Seixas
23-03-05, 01:17
Digamos que foi "o melhor do teste" :lol: . Foi o qu eobteve melhores resultados. É claro que a especificidade de cada um conta muito, isso nem foi posto em causa.
Isto da individualidade e da especificidade é muito engraçado!
Toda a gente fala que se deve individualizar o treino e deve haver especificidade do exercício, mas no fim são "20 abdominais para todos os atletas". E não pensem que é só na educação física. Vejam por exemplo os tão famosos métodos de Dotte, Troisier e DeLorme... que tanto são utilizados pela maioria dos ft. nos processos de reabilitação :smile:.
O teclado é a mesma coisa!
Um abraço,
Marco Fonseca
Eu concordo com o teste... esses teclados "ergonómicos" são muito melhores para toda a gente... a não ser para quem tem os cotovelos para dentro...
lol
Adérito Seixas
24-03-05, 00:32
O teste deu melhores resultados para esse teclado a curto prazo, a longo prazo os resultados não diferem.
Então.... De que é que nos serve.
Para mim o essencial continua a ser uma postura correcta e uma boa cadeira quando se está em frente ao computador.
Marco Fonseca
ftnunosilva
25-03-05, 02:54
Mas isso foi neste artigo em particular... vou ver se arranjo um trabalho que uns colegas estão a fazer.
Vitor Santos
26-03-05, 02:40
Embora tenha lido "pela rama" os artigos citados pelo mfonseca volto a chamar a atenção para o seguinte(embora não tenha estudos feitos):
1º Temos de dar mais atenção ao interface corpo/corpo pois os ergonomistas só conhecem o interface corpo/local de trabalho;
2º As maior parte classificadas LER, por médicos, no trabalho com teclados não têm origem localizada cotovelo,antebraço,punho e dedos daí que os resultados não sejam concretos;
3º Poderiam ser classificadas ortopédicamente como cervicobraquialgias ( ver a limitação do estudo);
4º Se não corrigirmos a posição da cervical, esta foi feita para prescrutar o horizonte em busca de caça(caçador colector) mantendo a sua lordose e não acifosada (leitor teclador) perdendo as suas caracteristicas de expansora de de pressões( como diz o Busquet "a anatomia é sempre o sinal da fisiologia"), teremos sempre problemas;
5º Por isso a velhinha secretária que escrevia numa "Remington" e ainda tinha de puxar o carretel não tinha tantos problemas, sentada numa cadeira de madeira e com uma secretária sabe Deus como;
A minha constatação ( quase 4 anos a desenvolver um projecto de exercicios Compensatórios no local de trabalho) é de que quem sabia dactilografar(que horror coisa tão demodé) não tinha problemas mas quem fazia o" triângulo das Bermudas" (texto,monitor e picar no teclado como as galinhas) estava sempre com problemas.
Que acham sobre esta constatação?
Daí que acho que somos imprescindiveis nestes locais pois só nós podemos fazer tal análise pois olhamos para o movimento e função e não para a patologia como o médico e ergonomista.
Adérito Seixas
26-03-05, 08:28
Eu acho que tem toda a lágica Vitor, estar a olhar para onde se põe o dedo e para o texto, que geralmente está ou ao lado do teclado ou na secretária (mas sempre abaixo do monitor) só pode trazer problemas. E para além dos problemas na cervical teremos sempre os problemas na região lombar.
Concordo também com o que disseste no ponto 3, muitas "tendinites" podem ser perfeitamente um problema na cervical.
Caro Vitor,
Citando Vítor Santos:
"1º Temos de dar mais atenção ao interface corpo/corpo pois os ergonomistas só conhecem o interface corpo/local de trabalho;"
Lamento discordar, mas em ergonomia a dualidade presente deverá ser corpo / local de trabalho. O interface corpo / corpo estará sempre presente até durante a nossa formação como fisioterapeutas. Modificando esse sistema, o ambiente que nos rodeia.
Se não conseguirmos encontrar uma resposta dentro do corpo não a iremos procurar no meio???
Um abraço amigo,
Marco Fonseca
Vitor Santos
27-03-05, 00:16
Caro Marco
Não percebi.
O que eu queria dizer não é que não procuremos respostas tentando modificar o meio, o que eu queria dizer é que no caso de trabalho com ecrans de visualização (TEV) e teclados devemos começar por procurar respostas dentro do corpo.
E que tal em vez de posto ergonómico começar por um curso de dactilografia que iria corrigir a postura da cervical e consequentemente diminuir as LER.
Não sei se agora fui mais explicito.
Um abraço
Vitot Tolda
Certo Vitor... Claro!
Peço desculpa pelo mal-entendido!
Marco
Adérito Seixas
27-03-05, 14:31
Mas reparem no que o Vitor escreveu e bem:
"1º Temos de dar mais atenção ao interface corpo/corpo pois os ergonomistas só conhecem o interface corpo/local de trabalho;"
Nós, Fisioterapeutas, temos em conta o interface corpo/corpo, isso é mais do que sabido, pelo menos por nós. Mas e os ergonomistas, o Vitor diz que não e eu concordo... ao mesmo tempo que modificamos o local de trabalho (o teclado, etc...) devemos também procurar o problema no interface corpo/corpo, sempre, ou pelo menos quase sempre.
Já pedi desculpa pelo mal-entendido.
De qualquer forma, parece que é a grande diferença entre o fisioterapeuta e o ergonomista. O fisioterapeuta tem conhecimentos acerca do corpo, como ele funciona, acerca do trabalho, das consequências da exposição a uma postura mantida ou repetida, de como poderá modificar o ambiente de trabalho e de como poderá modificar o gesto profissional ou desportivo.
Marco
Adérito Seixas
27-03-05, 18:26
Não estava a falar do teu mal-entendido Marco :wink:
Quanto à diferença entre Fisioterapeuta e Ergonomista... bem, nós temos realmente a capacidade de trabalhar na área, sem dúvida, mas existe uma licenciatura em Ergonomia.
Mas essa é a diferença...
O tema das LER é muito importante. Nós como educadores para a saúde devemos sempre "ensinar" e orientar os nossos pacientes para uma postura correcta no seu dia-a-dia. Mas porque ´não nos interessarmos na nossa postura? Que tipos de lesões sofremos? Como isso afecta o nosso dia-a-dia. A minha monografia de licenciatura é sobre esse tema. É alarmante a falta de informação que existe no nosso pais sobre esses tema. Apareceu agora um estudo nos Arquivos de Fisioterapia. Quem estiver interessado pode ir dar uma vista de olhos.
Abracos
Ismaelsilva
08-05-06, 22:06
Com muita razão a soraya marca a diferença, e penso que esta é área na qual a Fisioterapia deve começar a intervir, na Educação e Promoção de Saúde.
A formação nos locais de trabalho e o ponto crucial para a boas práticas durante o trabalho.
O Futuro da Fisioterapia a surgir na prevenção!
Ismael Silva
Vou mais além Ismael!
O futuro da Saúde começa na prevenção...
Quando os homens do Governo e Senhores Deputados entenderem que mais vale aplicar dinheiro em campanhas de prevenção, menos gastos com doenças crónicas e agudas teríamos.
E assim, não passariam vergonha ao dizer em plenário que vão dar isenção só a 20% dos idosos... mas deixa lá isso...
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