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View Full Version : Perturbações da Marcha e Quedas no Idoso



Fysio
03-10-04, 14:09
O aumento do tempo de vida das populações que se tem vindo a verificar nas últimas décadas tem levado os neurologistas a confrontarem-se frequentemente com os problemas neurológicos ligados à idade.

Um dos problemas que mais vezes se nos depara nas consultas é o das dificuldades na marcha com desequilíbrio e queda nos grupos etários mais avançados.

Cerca de 25% das pessoas com idade superior a 70 anos caem pelo menos uma vez por ano e essa percentagem aumenta para 35% no grupo acima dos 75 anos (1). As quedas acarretam grande morbilidade e muitas vezes são causa de morte.

A identificação das causas que afectam a marcha e o equilíbrio nos idosos nem sempre é fácil, porque muitas vezes não estamos perante uma causa isolada, mas sim um conjunto de pequenos défices somados.

Uma melhor compreensão dos mecanismos fisiopatológicos que regulam a postura, o movimento e o equilíbrio poderá trazer no futuro oportunidade para aplicação de novas terapêuticas, e a solução de todo o problema.

A postura é a posição global do conjunto dos segmentos corporais num dado momento, (2, 3). Em condições estáticas a projecção do centro de gravidade ao solo situa-se no interior do polígono da base de sustentação.

A postura é uma referência que é controlada pelo sistema nervoso pôr informações vindas da periferia: e que têm origem no labirinto, na visão e na propriocepção. Chegariam ao sistema nervoso dois tipos de informações, umas de natureza métrica sobre a posição dos segmentos do corpo em relação uns aos outros e outras informações de natureza dinâmica respeitantes à massa e inércia dos diferentes segmentos.

Admite-se que existe um registo do esquema corporal postural, uma espécie de representação interna do nosso corpo, com o qual se está sempre a aferir a resultante das informações vindas da periferia.

O esquema corporal postural permitiria: Percepção das fronteiras entre o corpo e o espaço extracorporal. Consciência das dimensões do corpo; do comprimento dos seus segmentos; da sequência da ligação dos vários segmentos; das suas propriedades de massa e inércia. Formação de referências estáticas em relação ao corpo e ao espaço que o rodeia. Ajustamento dos níveis de actividade muscular necessários para a manutenção de uma dada postura. Adaptações posturais para evitar alterações da postura.O movimento acarreta em si um desequilíbrio porque vai fazer variar a posição do centro de gravidade. Assim, o movimento é uma sucessão de quase quedas que terão que ser prevenidas em tempo adequado.

A manutenção do equilíbrio é feita por intermédio de reflexos posturais: uns de tipo contínuo que intervêm nas mudanças de posição lentas e outros descontínuos para correcção dos movimentos rápidos.

Haverá ainda possibilidade de o sistema nervoso, perante o plano do movimento que se vai executar, enviar ordens à periferia que levarão a ajustamentos posturais antecipados (4) (Fig. 1).
http://www.fisiozone.com/artigos/imagens/pre.gif Fig. 1 - Controle da postura por um circuito de feed-back, continuo e descontinuo. Três tipos de aferências (visual, labirintica e proprioceptiva) contribuem para a regulação da postura.O papel da visão, do labirinto e da propriocepção na manutenção da postura e do equilíbrio tem sido posta em evidência em trabalhos experimentais, por vários autores entre eles Lestienne num trabalho experimental (5) em que fez desfilar imagens na periferia da retina; Gurfunkel (6) estimulou o labirinto com correntes galvânicas; e Eklund (7) produziu vibrações nos tendões de Aquiles. As mensagens enviadas por estes órgãos necessitam ser aferidas para que se detecte e previna um desequilíbrio.

A dicotomia entre a postura e movimento é artificial. Há dois níveis em que se poderá entender a função de postura e movimento, o 1º nível é o da organização do movimento que engloba planificação, preparação e início do movimento, o 2º nível diz respeito à execução do comando motor.

A organização do movimento está a cargo das áreas corticais de associação, gânglios da base e neocerebelo.

A execução do movimento depende do cortex motor, das vias descendentes e do arquicerebelo.

Vejamos, quando ocorre um movimento entram em acção dois grupos musculares. Um primeiro grupo cuja contracção é necessária para o movimento, um segundo grupo cuja acção é necessária para fazer o ajustamento postural de modo a impedir o desequilíbrio que o movimento provoca.

Os ajustamentos posturais antecipados poderão ser avaliados por registo electromiográfico captado nos músculos posturais e nos músculos necessários à execução de determinado movimento (4). O outro modo de medir os ajustamentos posturais é registar as forças horizontais e verticais exercidas sobre uma plataforma estática ou móvel; é nisto que se baseia a posturografia (8). A posturografia regista as oscilações do indivíduo. A evolução do centro de pressão num determinado período de tempo pode obter-se por um estabilograma dizendo de outra maneira a posturografia permite medir a instabilidade postural.

As técnicas de posturografia estão em pleno desenvolvimento e têm sido aplicadas em trabalhos experimentais, neurofisiologia, reeducação, mas interessam cada vez mais à clínica. Esta técnica permitirá por exemplo avaliar a eficácia de fármacos empregues na correcção do desequilíbrio (9).

O comportamento do corpo humano na posição de pé pode ser comparado a um pêndulo invertido que se desvia à volta do eixo das articulações tibio-társicas (10). Este desvio postural aumenta quando o indivíduo está privado de informação visual, vestibular ou proprioceptiva (11) e aumenta com a idade sobretudo no sentido antero-posterior. Overstall (12) verificou que num grupo de idosos que caíram no ano anterior, havia um aumento do desvio postural quando comparados com o grupo controle.

Existe uma patologia de coordenação posturocinética com uma semiologia própria.

Analisemos, ainda que sumariamente, os factores que condicionam perturbações da marcha e do equilíbrio em indivíduos idosos.

Os reflexos posturais também se vão perdendo à medida que a idade avança (13) (Quadro 1).
http://www.fisiozone.com/artigos/imagens/quadro1.gif

Autor: Dra. Maria Helena Coelho[/img]