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View Full Version : Manifesto de um fisioterapeuta de Reeducação Postural sobre as artroses



coelholewis
11-06-09, 20:32
Manifesto de um fisioterapeuta de Reeducação Postural sobre as artroses em www.reeducacaopostural.blogspot.com (http://www.reeducacaopostural.blogspot.com)

As artroses, assim como as diversas variantes de artropatia degenerativa, são o resultado do acumular de diferentes factores nosológicos de importância reumatológica. Mas, na maioria dos casos, a presença de artroses específicas explica-se pela existência de determinada postura ou alinhamento. Pois é verdade, por exemplo, que o alinhamento do membro inferior condiciona a maior ou menor compressão de certas superfícies articulares. O alinhamento da articulação tíbio-társica e da articulação do joelho (nomeadamente, a fémuro-tibial) está fortemente relacionado com o alinhamento geral do membro inferior. E este mesmo alinhamento está relacionado fortemente com o estado de tensão das estruturas musculares. Por exemplo, a postura do pé ou da tíbio-társica depende muito do estado de tensão do tendão de Aquiles e da fáscia plantar, os quais podem ter ou não uma grande ligação com o estado de tensão da restante cadeia muscular posterior. A postura do joelho valgo vs. varo tende, geralmente, a relacionar-se com o estado de tensão das estruturas musculares que pertencem à geografia muscular do joelho. O varismo, mais comum nas senhoras de idade, tende a estar associado a um maior estado de tensão dos abdutores e/ou da banda iliotibial, enquanto que o valgismo relaciona-se mais predominantemente com a retracção dos adutores e/ou também com a retracção da banda iliotibial. O joelho recurvatum tende a provocar lordose lombar excessiva e/ou lordose dorsal. Por outro lado, o estado de conflito da articulação do ombro (conflito sub-acromial) ou da articulação da anca tende a estar associado respectivamente à cifose dorsal e à hiperlordose lombar com báscula anterior da bacia. Daí que um problema de coluna, associado a uma hiperlordose lombar e/ou dorsal, se relacione muitas vezes com a artrose da anca. Mas, no meio de todo um conjunto avultadíssimo de possibilidades, podíamos continuar eternamente a referir exemplos de possíveis correlações, que provavelmente não possuem verdadeiro significado científico (pois, na prática, há todo um conjunto multimodal de casos possíveis, sendo que é sempre preferível conhecer a integralidade da postura de cada doente individualmente, sempre com base numa filosofia de observação e análise idiossincrática).
Mas de uma coisa eu tenho a certeza: é que os diferentes sistemas de eixos de alinhamento da coluna e dos membros, os quais se influenciam uns aos outros, vão condicionar um funcionamento vicioso da articulação, com possibilidades de perturbação biomecânica. Ora, é muito comum os fisioterapeutas realizarem trabalho de mobilidade da articulação com artrose. Considero que tal prática é um erro. Ora, se a articulação possui um alinhamento vicioso, isso significa que o trabalho funcional dessa articulação sem realinhamento prévio pode representar uma sobrecarga de determinadas estruturas articulares. Vejamos o exemplo do joelho valgo. Este significa a existência de uma maior compressão das superfícies articulares externas da articulação fémuro-tibial. Ora, sempre que o doente realizar alguma tarefa funcional, por mais simples que ela seja (exemplo: andar), o doente estará a desgastar aquelas superfícies articulares. Daí que, para mim, é preferível, ao invés de trabalhar, dia após dia, a mobilidade e força daquela estrutura, propiciando grande sofrimento ao doente, mais vale tentar influenciar o sistema de eixos da articulação... desde claro que se entenda o que se está a fazer. Daí que, por mim, realizaria um trabalho de alongamento global, pelo menos da totalidade do bloco inferior da cadeia muscular posterior, tentando propiciar o realinhamento do joelho (mesmo que munido de algum conjunto de manobras mais analíticas de terapia manual... sempre dentro da postura global). Só depois de o ecossistema muscular do joelho ter sido relaxado (e o tónus inibido) e o alinhamento ter sido readquirido (mesmo que parcialmente) é que faz sentido dar mobilidade aquele joelho artrósico.
As artroses são, em todos os indivíduos, uma potencialidade, visto que todos possuímos, em maior ou menor nível, um jogo viciado de tensões musculares e de compressões articulares assimétricas. Somente num indivíduo com equilíbrio angular total, alinhamento absoluto, e total simetria corpórea, o jogo de tensões articulares estaria saudavelmente distribuído. Aí, era preciso que os outros factores contributivos para a artrose - factores hormonais, osteoporose, obesidade, etc. - fossem de expressão muito elevada.
A realização de uma Fisioterapia centrada na mobilidade articular sem prévio trabalho postural é, a meu ver, um absurdo. E, se essa Fisioterapia incluir o trabalho de força muscular, o absurdo é ainda maior, pois esse trabalho de força leva ao aumento do jogo total de tensões musculares (fortalecem-se músculos fracos, mas também se fortalecem músculos hipertónicos das cadeias musculares, pois, como já foi explicado em vários sítios, o princípio do isolamento do trabalho muscular não passa de um mito), contribuindo para fomentar mais desequilíbrio e mais desalinhamento. É certo que uma articulação com artrose é geralmente uma articulação com músculos fracos, mas essa fraqueza tem mais a ver com a fraca qualidade de alinhamento articular, e portanto com a fraca capacidade funcional da articulação, do que com uma real falta de potência muscular. Se o equilíbrio e o alinhamento forem readquiridos, a articulação aumenta a sua capacidade funcional, aumentando automaticamente a força dos seus músculos pela "normal" prática funcional.
A ordem que defendo para a "prescrição" de um trabalho fisioterapêutico para uma articulação com artrose é a mesma que defendo para o trabalho geral em Fitness: alongamento » mobilidade » força » alongamento.
Sei que o tempo que o Sistema nos delega aos doentes não permite o trabalho postural verdadeiramente abrangente, mas como seria bom realizar umas quatro ou cinco sessões bem feitas, com princípio, meio e fim, do que dezenas e dezenas de sessões multiplicadas, constituídas pelo exercício mormente activo (visto que o terapeuta pouco tempo tem para tocar no doente).
A visão das artroses como resultado de desequilíbrios musculares e de uma distribuição assimétrica das forças, associada ao desalinhamento do sistema de eixos articulares, leva, a meu ver, à revolução na forma como são tratadas, não só as artroses, mas a totalidade das artropatias. Por outro lado, o trabalho postural global poderia, a meu ver, prevenir uma boa parte das artroses que se acabam por desenvolver, assim como acho que, no sentido oposto, o trabalho muscular intrépido associado às práticas desportivas modernas e massificadas, poderá levar ao desenvolvimento mais célere da patologia degenerativa.
No meu mundo eutópico, a intervenção postural com base nos métodos holísticos e mézièristas de alongamento global, será suficiente para preservar ou corrigir (mesmo que parcialmente) o bom estado de simetria e alinhamento de um corpo, em que o jogo de forças será o mais perfeito possível.

Luís Coelho

gramendes
12-06-09, 23:36
Olá

Interessante, mas mais uma vez não colocou na balança a "diversidade tónica". Vejamos um exemplo:" se um paciente tem na base um tonús mais baixo e é obeso, o alongamento de toda a cadeia muscular terá como resultado o realinhamento articular ou, pelo contrário, agravá-lo-á? Onde é que ocorre a "estabilidade mecânica"? Que estructuras é que pagam a "factura" com esse "afrouxamento tónico"?
Neste caso em particular, estou em perfeito desacordo consigo, pois um "alongamento" iria infuir um tónus ainda mais baixo e a sobrecarga no tal "eixo desalinhado" iria forçosamente aumentar. Há que pensar na "estabilidade tensional" do conjunto e nem sempre as técnicas de "reeducação postural" visam o alongamento das estructuras mio-fasciais. Muitas vezes há que pensar em "encurtar" algumas dessas estructuras. Imagine a hiperlordose lombar na senhora com seios "grandes". Que estructuras é que prefere "sacrificar"? O que é que dará maior qualidade de vida ao paciente? Uma estenose do canal cervical e/ou lombar, um défice ventilatório, uma artrose da coxo- femural e/ou condiliana ...?
O conceito de "neuro-dinâmica" deve sempre ser colocado na balança e nem sempre a resposta está numa "reorganização mecânica",...é que um eixo alterado pode ser "funcional" e um "eixo reorganizado" pode ser "desastroso". Quero com isto dizer, que nem sempre a "reorganização funcional" segue ou deverá seguir, a "reorganização mecânica".
Tende juntar um pouco mais o conceito "mézièrista" com o conceito "buttlerista" e "bobatheriano", por exemplo. Talvez encontre um pouco mais de respostas na dualidade com que se depara. :wink:

Cumprimentos

gramendes
12-06-09, 23:44
....."As artroses são, em todos os indivíduos, uma potencialidade, visto que todos possuímos, em maior ou menor nível, um jogo viciado de tensões musculares e de compressões articulares assimétricas. Somente num indivíduo com equilíbrio angular total, alinhamento absoluto, e total simetria corpórea, o jogo de tensões articulares estaria saudavelmente distribuído."....

Somos naturalmente "assimétricos", e muito raramente somos "funcionalmente simétricos".
Será que a "tensão neural" é simétrica?
Como alinhar o que é "naturalmente desalinhado"?

coelholewis
13-06-09, 04:27
Olá Ft. Graça Mendes,

Obrigado pelo seu contributo para o meu texto. A realidade é sempre polícroma, e a perspectiva que deu tem a sua importância. Posso dizer que a meu ver, e na perspectiva da Reeducação Postural, o modelo funcional estará sempre dependente do modelo estrutural. Acredito que a normal função - mesmo aquela que respeita à "flexibilidade neuromeníngea" advém do trabalho estrutural, o qual inclui o alongamento das cadeias neuromeníngeas. Por outro lado, o meu paradigma "funcional" está muito próximo do conceito de Bobath, pelo que considero que a proximidade entre Mézières e Bobath é real e já tem sido algo demonstrada.
Concordo consigo num aspecto: o trabalho reeducativo pode ter resultados desastrosos... é bem real que, por vezes, ao alterarmos a estrutura, estamos a interferir com uma forma de equilíbrio que se tornou "normal" no sujeito. Mas não será importante conformar o sujeito a uma nova "normalidade"?... Não me refiro a uma mudança radical, refiro-me à possibilidade de tentar interferir com um processo que não deixa de ser patológico e vicioso.
É uma questão que fica em aberto. E, mais uma vez, "cada caso é um caso", e assim como há casos em que seria aceitável o trabalho de reeducação estrutural, há outros em que esse trabalho seria assaz radical.

Abraços

Luís Coelho

gramendes
14-06-09, 09:29
olá

Obrigado!

A maior parte de nós tem uma perfeita noção do dinamismo estructural musculo-esquelético, mas esse "dinamismo" perde-se quando entramos um pouco "mais dentro" da estructura e vamos até ao sistema nervoso.
Diáriamente assistimos aqui no foro, a questões/dúvidas em que isso está bem explicito.
A Reeducação Postural tem necessáriamente que incutir o "todo", o "indivíduo". Phillipe Souchard, por exemplo, não o incluiu, esqueçeu-se do "dinamismo" neural. Buttler, apesar de defendê-lo, também o "estabiliza" um pouco quando entra mais "dentro" do próprio SN, mas será fácilmente perceptivel , pois ainda não tinha sido descrita a famosa teoria da "neuroplasticidade". Karel e Bherta Bobath, andaram mais próximos desse "dinamismo", mas confesso que fico "decepcionada" quando verifico que o "metodo de bobath" actualmente perdeu parte desse "dinamismo"; a grande preocupação com a "simetria e com o alinhamento" é disso exemplo; o "dinamismo " proprioceptivo é contido no espaço e no tempo de forma a ser "controlado"; a estrutura é "viciada" de forma a ganhar funcionalidade....
Poderia continuar toda a manhã....:lol: Sofro do grande problema "feminino",..."quando começo a falar tenho dificuldade em parar"...:biggrin::badgrin::lol:
Partilho de alguns dos seus conceitos, mas não de todos. Pelo que li do seu livro, achei que parte sempre, duma atitude "localizacionista" para tentar ir buscar o "dinamismo". É a minha opinião...mas a única coisa que sei...é que "cada vez sei menos!!!...":confused:

..."Acredito que a normal função - mesmo aquela que respeita à "flexibilidade neuromeníngea" advém do trabalho estrutural, o qual inclui o alongamento das cadeias neuromeníngeas"....

Com isto,... não estou de acordo!
As cadeias neuromeníngeas exigem um grau "óptimo" tensional, e tal como as cadeias neuromusculares, a funcionalidade está dependente da "harmonia tensional" do conjunto. A "necessidade funcional" vence sempre essa luta.


Um abraço

coelholewis
14-06-09, 15:13
Olá Ft. Graça,

Penso que o seu conceito de localizacionismo tem a ver com a visão músculo-esquelética, quando, no fundo, o "neurológico" tem cada vez mais importância. Concordo progressivamente consigo. Realmente, há várias situações em que o Equilíbrio é certificado pelas estruturas neuromeníngeas. E aí todo o nosso paradigma estrutural volta à parte "funcional" do ciclo, pois, quando nos preocupamos com a parte neurológica estamos, de facto, a preocupar-nos com as "funções".
Não sei se esta visão "funcional" se adequa a todos os casos que encontramos. A meu ver, há pessoas que preenchem mais o paradigma mio-fascial, enquanto que outras preenchem mais o paradigma neuromeníngeo.
Também não sei até que ponto devemos ou não tentar uma "mudança estrutural e/ou funcional". Por exemplo, no domínio das psicoterapias adequadas à estruturação da personalidade, sabemos que há pessoas que aceitam relativamente melhor que outras a possibilidade de mudança, sendo claro que essa mudança tem sempre a sua limitação. Claro que há os terapeutas cognitivo-comportamentais, os quais acreditam que uma verdadeira mudança personalística não pode ter lugar, etc.
Portanto, tanto no domínio da Fisioterapia como no domínio da Psicoterapia, temos uma série de dialécticas que estão longe de se ver resolvidas. Mas de uma coisa eu tenho a certeza: é necessário reflectir estas dialécticas, de um modo a que a Ciência, pelas limitações do seu método, não pode aceder.
Concordo consigo quando me refere que o método Bobath está a perder muita da sua essência. Realmente, o método Bobath clássico estava mais próximo da realidade do que as novas interpretações do método, as quais estão mais perto de Carr & Shepherd do que de Bobath.
Mas o que a desafio a fazer é a atender a um método denominado 'Reconstrução Postural', o qual é aflorado no meu livro. Sugiro que veja a parte em que falo sobre ele. É que este método propõe muitas coisas que o aproximam do conceito de Bobath. Claro que se mantém a dilemática mudança vs. não mudança. Até que ponto devemos interferir no equilíbrio neurológico do doente? Diria que só devemos interferir no seu equilíbrio quando o próprio sujeito nos indica que quer essa mudança, custe o que custar. Há sujeitos que apenas querem função, independentemente da qualidade da mesma. Há outros que querem "harmonia". E há outros que só não querem ter dores. E há tantos indivíduos que a meu ver têm "desequilíbrios posturais", mas que não possuem queixas ou qualquer intenção de mudança (serão estes os que estão, no fundo, mais equilibrados que os outros?)...
Enfim... uma série de questões que gostaria que fossem "pesadas" pelos fisioterapeutas na sua generalidade. Infelizmente, a grande maioria dos fisioterapeutas não possui a "bagagem" ou os skills necessários para qualquer reflexão deste tipo.

Até breve

Luís Coelho

gramendes
16-06-09, 03:10
" Concordo progressivamente consigo." :smile:.....Gostei do "progressivamente"... :lol:
"Realmente, há várias situações em que o Equilíbrio é certificado pelas estruturas neuromeníngeas. E aí todo o nosso paradigma estrutural volta à parte "funcional" do ciclo, pois, quando nos preocupamos com a parte neurológica estamos, de facto, a preocupar-nos com as "funções".

O "neurológico" é estructura e não função. Função é a resposta da "estructura". Este é frequentemente um "erro" muito comum na nossa classe e também nos clinícos. Frequentemente deparo-me com ele.
Imagine, por exemplo, a estructura meningea como "filtro funcional" da estructura neurológica... os "paradigmas" que refere começam a fazer algum sentido, ou não?.... Pois lá está: "o conceito dinâmico versus o conceito localizacionista".

"Também não sei até que ponto devemos ou não tentar uma "mudança estrutural e/ou funcional". Por exemplo, no domínio das psicoterapias adequadas à estruturação da personalidade, sabemos que há pessoas que aceitam relativamente melhor que outras a possibilidade de mudança, sendo claro que essa mudança tem sempre a sua limitação. Claro que há os terapeutas cognitivo-comportamentais, os quais acreditam que uma verdadeira mudança personalística não pode ter lugar, etc."
Uma vez mais,...ganha o localizacionismo!
É extremamente difícil entender uma "estructura" em constante dinamismo. Partimos sempre de um conceito de "estaticidade" para conseguirmos "encaixar" o dinâmico. Penso que a nossa necessidade de controlo sobre o que nos rodeia, nos "obriga naturalmente" a esse conceito. Mas aquilo que verificamos na prática, é que a nossa "estructura estáctica" está em constante movimento. Um exemplo clássico disso pode ser observado no mundo da neuropsiquiatria versus a neurologia. A psicoterapia está no mesmo "barco em que nós estamos"...

... "Mas de uma coisa eu tenho a certeza: é necessário reflectir estas dialécticas, de um modo a que a Ciência, pelas limitações do seu método, não pode aceder".

Pode aceder sim,... apenas ainda não conseguiu lá chegar! Contudo não me parece que as ciências ditas "holistícas" também o consigam. Pessoalmente opto mais pelo método "cientifíco". Espreite o mundo da "medicina quântica", por exemplo, e vai ver a correspondência directa de um conceito completamente "estratificado" a um conceito cientifíco.

..."Mas o que a desafio a fazer é a atender a um método denominado 'Reconstrução Postural', o qual é aflorado no meu livro. Sugiro que veja a parte em que falo sobre ele. É que este método propõe muitas coisas que o aproximam do conceito de Bobath. Claro que se mantém a dilemática mudança vs. não mudança."

... Falta-lhe o "entender melhor o filtro". É perigoso quando aplicado sem este conceito. A influência tónica que incrementa nos "centros de estabilidade dinâmica" são muito dificeis de controlar e por outro lado, as vias neuronais mais solicitadas podem desenvolver uma "hipereactividade tónica" (pesquise os cutâneos e os ROT, que verifica isso mesmo). As estructuras sub-talâmicas sofrem um bocadinho... mas confesso que é um método muito interessante.

"Enfim... uma série de questões que gostaria que fossem "pesadas" pelos fisioterapeutas na sua generalidade. Infelizmente, a grande maioria dos fisioterapeutas não possui a "bagagem" ou os skills necessários para qualquer reflexão deste tipo.!"

Concordo,...mas "formação" é isso mesmo. Ninguém pode ser dono de todo o conhecimento, ...mas o respeito por aquele que se entrega nas nossas mãos, esse nunca deve ser descurado. Infelizmente, haverá sempre alguém que parte do princío que é dono do "saber", que a "humildade" é um sentimento de "pobre de espiríto", e que o respeito,...primeiro do próprio e só depois, o do outro. A maior parte dos "skills" ficam a este nível.

Realmente é pena que este debate seja feito a dois. Gostaria de ouvir também, neste dominío alguns comentários de outros colegas,..mas ...Um Abraço

coelholewis
20-07-09, 20:38
A legitimidade da intervenção reeducativa: relembrando Hegel

Nos últimos tempos tenho desdenhado reflectir na legitimidade de intervencionarmos no doente em termos ditos “estruturais” ou “reeducativos”. Se um doente tem determinada perturbação e procura, directa ou indirectamente, um fisioterapeuta, assumimos logo, e à partida, que existe uma condição “anormal” que teremos que “normalizar”. Qualquer acto terapêutico, assim como qualquer acto médico, é uma forma de interferirmos na “natureza” de determinada perturbação, o que nos leva a pensar que o profissional de saúde é sempre um agente de um certo artificialismo, no sentido em que se intromete numa qualquer forma de (des)equilíbrio.
No contexto da Reeducação Postural, é comum encontrarmos certos indivíduos com certas posturas que estão de tal forma “fixadas” ou “estruturadas”, que se torna relevante reflectir até que ponto devemos “interferir” naquilo que vemos. Devemos, por exemplo, deslordosar uma hiperlordose lombar que existe há décadas em determinado indivíduo? Devemos corrigir determinada cifose num indivíduo idoso que nunca fez fisioterapia em toda a sua vida? Devemos induzir alongamentos “correctivos” em indivíduos com idades avançadas que nunca fizeram ou praticaram qualquer tipo de desporto?...
Ora, é preciso entender que é, efectivamente, real que certos indivíduos se encontram fixados ou estruturados em determinados “designs posturais”, o que nos leva a pensar que, no mínimo, a intervenção postural deverá ser feita de forma lenta e subtil. Porém, não posso deixar de pensar que, independentemente do grau de “estruturação” de determinada deformidade, seria um crime não tentar interferir com esse processo, tal como seria um crime deixar evoluir um estado cancerígeno ou deixar que uma demência se instalasse mais precocemente. Portanto, o que pretendo dizer é que mesmo que a patologia postural seja algo “normal” para determinado indivíduo, não podemos deixar de tentar induzir uma nova noção de normalidade, ainda mais porque, se o indivíduo em questão nos procura, é provável que o seu equilíbrio não seja assim tão “normal” (se a dor existe, então algo a provoca...).
Ora, o que pretendo introduzir aqui é a noção de que o “conflito” poderá ser necessário à evolução. Claro que o conflito poderá ser factor de agravamento da dor... E ninguém sabe melhor do que eu que, ao invertermos a evolução de determinada deformidade postural com demasiadada celeridade, arriscamo-nos a aumentar os sintomas ao invés de os reduzirmos. Mas, aparentemente, parece que o que conta é mais a viagem do que o destino, pelo que o conflito é necessário à estruturação de uma nova personalidade corpórea (nem que seja com a ajuda de algum paliativo anti-álgico, um analgésico ou um anti-inflamatório...).
Ninguém melhor do que Hegel espelhou extraordinariamente bem a noção de “evolução por meio de conflito”. Pois, para este filósofo, a evolução do homem, e da sua História, faz-se sempre por um processo dialéctico entre um facto e outro que o contraria; algo a que, mais tarde, se designou denominar respectivamente de “tese” e “antítese”. Ora, da relação entre um factor que tende num sentido e um factor que tende no sentido que, de certa maneira, contraria o primeiro, resulta algo mais organizado, algo mais evoluído, algo que não é só a soma dos factores anteriores. A esse “algo” convencionou-se chamar-se “síntese”. E é precisamente de um conjunto de sínteses que se trata a intervenção postural no ser humano. O que fazemos é, através da exploração de uma antítese (porque contrariamos as hegemonias posturais evolutivas e ontogenéticas), por meio por exemplo da deslordose ou da expiração, induzimos ao estabelecimento de uma síntese que é, no fundo, um estado de organização que tende ao “equilíbrio muscular e postural”.
Portanto, não sei se acredito na ideia de “postura normal para o sujeito”, se essa mesma postura se se afasta muito daquilo que consideramos o “normal” (ex: a 'bela forma' de Mézières). Acredito, sim, que não devemos intervencionar doentes que não possuam manifestações clínicas ou que simplesmente não tenham pedido para ser intervencionados. Mas, se o doente me procura, terá a sorte – ou o azar – de lhe ter calhado um terapeuta de orientação “morfodinâmica”, o qual consubstancia uma intervenção a um nível mais global que as intervenções analíticas (que são, de facto, menos indutoras de qualquer tipo de conflito).
Outra coisa que deverá ser pensada é a utilização de medicamentos como factores que auxiliam a vivência do “conflito”. Se o conflito deverá ser uma condição para a produção de uma nova forma de equilíbrio mais próxima da “homeostase”, não é de negligenciar que é de todo desnecessário tentar realizar a “viagem” no sentido da “síntese” sem a ajuda de métodos que promovam a diminuição das dores. Portanto, nada impede a utilização de algumas terapêuticas anti-sintomáticas, como a medicação analgésica e/ou anti-inflamatória. Para alguns doentes, pode ser a única forma de os intervencionarmos com um nível “sofrível” de dor.
Portanto, termino dizendo que, ao potenciar o paradigma da Reeducação Postural, não me estou a opôr a outras terapêuticas “auxiliadoras”, desde claro que estas últimas não contraponham a lógica da primeira.

Luís Coelho

Ana Fernandes
17-02-10, 10:19
Encontrei este post por acaso e apesar de os intervenientes terem terminado aqui a discussão gostaria de deixar algumas notas.
Primeiro acho que o tema foi discutido a dois pois quem gosta de discutir este assunto provavelmente não o esperaria encontrar na Fisioterapia Geriátrica. É mais abrangente do que isso.
Concordo com algumas coisas que foram ditas, discordo de outras. Acho interessante a reflexão sobre: reeducação postural para todos? Tb eu acho que nem todos os nossos pacientes estão preparados, da mesma forma que nem todos estamos preparados para fazer psicoterapia. Por vezes esta ideia de globalidade em relação à RPG é deturpada mt por culpa da formação de base da RPG, mas isso é um outro tópico. Globalidade não significa alterar toda a estrutura do individuo para o tornar no Homem perfeito de Leonardo da Vinci, mas sim perceber as estruturas em relação com a dor que motivou a consulta e intevir justo destas. Essa é a globalidade da RPG.
Mudança.. um tema dificil. Na minha opinião actual a mudança é mt dificil. Contudo isto não nos retira dinamismo, porque podemos, dentro do que somos amadurecer e procurar soluções para os nossos ciclos viciosos. Intervimos de uma forma estrutural, não alteramos a estrutura. Estimulamos a mudança, um novo equilibrio, um novo alinhamento que poderá ser mais eficaz. A pessoa, mente e corpo, aceitam ou não.
Agora descendo à terra tenho curiosidade em saber como a FT. Graça Mendes trata as artroses. No fundo esse é o tema deste post.Como realmente alivio a dor provocada pelas artroses?

Bruno L.
06-03-10, 20:54
Boa noite!

estou a fazer um projecto final de curso na área das barreiras arquitectónicas para idosos!

se me poderem orientar na pesquisa ou com alguma informação agradecia!

cumprimentos