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View Full Version : A Ordem dos Fisioterapeutas: será uma ilusão? Um manifesto



coelholewis
10-06-10, 08:35
Peço-vos: não se acerquem da ilusão que um certo “utilitarismo maioritário” tem concebido relativamente a uma futura Ordem dos Fisioterapeutas. No plano teórico, a Ordem será muito bem vinda, e todos devem contribuir para a “petição”. Mas, no plano prático, as coisas não são assim tão simples.
Na realidade, a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas pede aos seus associados para subscrever uma petição, que, se for a bom porto, permitirá tornar os fisioterapeutas “bem colocados” da APF num órgão ainda mais poderoso: uma Ordem. A APF precisa dos seus associados como combatentes em nome de um órgão que irá, supostamente, tornar os fisioterapeutas profissionais mais autónomos e reconhecidos.
Em tempos, os enfermeiros também tinham a mesma ilusão. Mas, como veio a verificar-se, a Ordem dos enfermeiros tornou-se um organismo totalmente anémico, incapaz de exercer qualquer tipo de pressão, ou de realizar qualquer tipo de acto licencioso capaz de “ajudar” verdadeiramente os profissionais. Perguntem aos enfermeiros se se sentem “reconhecidos” pela sua Ordem...
Assumindo que a “nossa” Ordem não irá cair na pura “ineficiência” dos “enfermeiros”, devo dizer que a Ordem dos Fisioterapeutas, um pouco à semelhança dos sindicatos, só poderá vir a favorecer todos aqueles fisioterapeutas “velhos do Restelo” que se encontram bem colocados nos Hospitais e Centros de Reabilitação. Já a grande maioria dos jovens fisioterapeutas, muitos deles a ganharem a recibos verdes, e eventualmente a trabalharem em conjunto com auxiliares de fisioterapia e médicos fisiatras nas clínicas existentes, não conhecerão qualquer tipo de vantagem com uma pretensa Ordem; esta só fará com que aumente o nível de conflito (já existente) entre os diversos profissionais, os quais têm que inelutavelmente trabalhar como equipe.
Pergunto: quem fará parte da administração da Ordem? Provavelmente os membros da Associação. Pergunto: que vantagens possuo em fazer parte da APF? Descontos nas suas próprias formações? Acordos inúteis com outros Organismos? Divulgação de cursos ao preço de 200 euros? Divulgação de um Boletim que já quase nem é impresso?
Pergunto: Que fez a Associação para impedir a abertura indiscriminada de escolas de Fisioterapia? (Teremos consciência de que os membros da APF são, na sua maioria, professores nessas diversas escolas?...)... Que fez a APF para divulgar o mundo da Fisioterapia nos meios da Intelligentsia portuguesa? (Sozinho, publiquei mais artigos na Comunicação Social do que todos os membros da APF, presidente incluída, em conjunto). Que fez a APF para divulgar a verdade deste mercado grosseiro das múltiplas formações pós-graduadas? (Antes pelo contrário, ajuda e apoia um mercado que explora os jovens fisioterapeutas)... Podia continuar eternamente... Claro que a pergunta “final” é óbvia: Se a futura Ordem vai ser constituída por membros da APF, quem me garante que a Ordem vai fazer mais do que a APF tem feito?...
Já sei o que vão responder... A Ordem possui maior poder e legitimidade de intervenção que uma simples Associação. Daí a necessidade de criar uma Ordem, a qual possuirá maior poder “persuasivo”. Que grande ilusão!... A Ordem visa dar poder a quem quer poder! A Ordem visa dar lóbis e “cadeiras douradas” aos que já estão bem instalados! Pois, na realidade, nem sequer as entidades patronais se preocupam com a nossa suposta Ordem. Não são as nossas Cédulas reconhecidas unicamente pelo Ministério da Saúde?... Cédulas algumas em que os nossos colegas são identificados como “Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica”...
A realidade real das coisas tem demonstrado que as Ordens em geral não passam de organismos de abuso de poder, muitas vezes completamente descaracterizados e distantes da realidade dos profissionais. A “Elite” quer existir às nossas custas, mas não poderá resolver a nossa situação.
Acho que, no fundo, é mais fácil, para o nosso reconhecimento e autonomia, provar junto das nossas entidades patronais, principalmente se forem médicos, as nossas verdadeiras capacidades intelectuais e pragmáticas. É o que tenho feito junto dos meus “patrões” e todos os outros colaboradores, o que me permitiu, com o tempo, crescer na “empresa”. E digo-vos que a directora clínica da Clínica onde trabalho (médica fisiatra) tem demonstrado muitas vezes mais reconhecimento pelo meu trabalho e qualidades do que a simples recepcionista ou a mulher da limpeza...
Pensemos menos em formações! Pensemos menos em Ordens ou Sindicatos! Pensemos menos em soluções de “outros” relativamente à nossa vida. Pensemos mais nas nossas próprias qualidades heurísticas, na nossa capacidade competitiva, na nossa capacidade para conseguir “crescer” e mostrar que somos mais eficientes que muitos “outros”. Este tipo de “combate constante e competitivo” não existe para aqueles que já estão bem instalados (e encostados) nos diversos hospitais que por aí abundam...
Não coloquemos muita fé numa suposta Ordem. Esta gosta, muitas vezes, de exercer o seu poder de forma supostamente arbitrária. O nosso reconhecimento e autonomia estão dependentes, acima de tudo, das nossas capacidades, as quais devem basear-se num exercício de Liberdade (responsável). A Ordem dos Fisioterapeutas não será eficiente. Se o vier a ser, então transformar-se-á em mais um organismo de mero exercício de Autoridade.

Luís Coelho
www.reeducacaopostural.blogspot.com (http://www.reeducacaopostural.blogspot.com)

Ana Fernandes
10-06-10, 09:02
Se concordo com algumas coisas que escreveu, nomeadamente sobre necessidade de cada fisioterapeuta, pelo seu trabalho e dedicação ir sendo reconhecido nos seus trabalhos, tenho de estar em desacordo com a sua visão tão pessimista sobre a futura Ordem. Penso que o crescimento e reconhecimento de uma profissão se faz a dois níveis, individual e colectivo. Cada um tem a sua missão diária, mas isso não retira importância à necessidade de nos afirmarmos enquanto profissão. O público desconhece a realidade da fisioterapia, o sistema montado torna a fisioterapia uma actividade perfeitamente banal e inútil, a cair em descrédito. Precisamos de alguém que nos represente, que mostre ao país no que a fisioterapia se tornou e que se responsabilize pelas nossas práticas, que garanta ao utente de que quando recorre a um fisioterapeuta será tratado e não aldrabado.
Sim, existe corrupção na política, e por isso deveríamos viver em anarquia? Percebe o que quero dizer? Se não estão as pessoas certas no lugar certo que sejam susbtituidas. Quem quer ir para lá? Não há eleições?
Penso que a questão é fazer a Ordem funcionar, com todas as dificuldades porque a sociedade em que vivemos está mergulhada na mentalidade de que fala, não acredito que a solução seja simplesmente não criar Ordem alguma.

ft'carlos
10-06-10, 12:28
Para mim a criação da ordem era bom no sentido de podermos ter mais poder na regulamentação da nossa profissão, nomeadamente poder restringir auxiliares, massagista, contractos, condições de trabalho, existir realmente fiscalização rígida.
Existem ainda algumas "resistências" a nível da criação de um gabinete particular, o que contradiz a definição da nossa profissão.
Podem também regulamentar e reconhecer as variadíssimas formações que tem surgido no nosso mercado (o que eu acho essencial para nos fisioterapeutas termos formações mais especificas em certas áreas que durante o nosso ensino não aborda da melhor forma que sejam credíveis obviamente, porque não nos podemos esquecer que estão sempre a surgir novas técnicas e algumas que se usavam à 10 anos atrás hoje já se questiona se é mesmo assim).
Acho que devíamos ser como no Brasil, todos os Fisioterapeutas tem uma especialização numa área e têm que fazer um exame à ordem para serem reconhecidos como tal, acho que a especialização é uma forma de podermos ser mais eficientes na nossa prática.
Por outro lado a mesma podia realmente mostrar à sociedade o que realmente somos, promover a nossa profissão (o que também acarreta a nós fazer isso).
Entre outras..
Concordo que se iriam criam as ditas cujas "cadeiras douradas", mas em contra-partida podiam regulamentar melhor a nossa profissão e dar a conhecer o nosso mundo, no meu ver..

miguel_ok_4
10-06-10, 18:01
Como sempre, em tudo, só podermos confiar em nós e valermo-nos de nós próprios, ninguém nos vai ajudar como classe profissional. A Ordem só era boa para impedir os pseudo-fisioterapeutas e estudantes finalistas de trabalhar com o título de "fisioterapeutas"... Levavam uma bruta de uma multa e nunca mais poderiam exercer por usurpação de funções.

Miguel Moço

joaomoreira
10-06-10, 21:47
Boa noite,

Gostaria de tentar responder a algumas questões que o colega Luís Coelho aqui colocou.


Pergunto: Que fez a Associação para impedir a abertura indiscriminada de escolas de Fisioterapia? (Teremos consciência de que os membros da APF são, na sua maioria, professores nessas diversas escolas?...)...

A APF não tem poder para combater a abertura de escolas de Fisioterapia.Em 1º lugar este aumento de escolas permitiu que a Fisioterapia atingisse números sem os quais era impossível revelar o peso que a Fisioterapia tem a nível social.Em relação à questão dos membros da APF serem professores em algumas escolas devo lhe relembrar que se a APF é constituída pela "velha escola" esta não está seguramente nas escolas abertas este ano.


Que fez a APF para divulgar o mundo da Fisioterapia nos meios da Intelligentsia portuguesa? (Sozinho, publiquei mais artigos na Comunicação Social do que todos os membros da APF, presidente incluída, em conjunto).

Dou lhe os parabéns pelas publicações,mas a Apf tem acordo com o alguns programas de televisão(sociedade civil) e com algumas associações como a Associação do Cancro da Mama.Esta divulgação pode também ser potenciada pelo facto da Apf se tornar uma Ordem.


Tem razão que parte de cada um a mudança, mas nesse caso porque não temos um melhor nível de Fisioterapia?Seguramente porque ainda existem muitos entraves, como a falta de acordos com a ordem dos médicos de forma a criar protocolos de electroterapia por exemplo.
Antes de pensar negativamente, eu penso como em 50 anos do nada, estamos, sem muita união, em todos os Hospitais e cada vez em mais unidades apenas com a demonstração de valores dos fisioterapeutas.Não teria sido muito mais simples uma ordem ter demonstrados através da compilação de estudos a pertinência da fisioterapia em unidade x e de seguida a conversação com médicos e enfermeiros?

Só para acabar, acha que se existisse Ordem existiriam outros profissionais a usurpar funções sem punição denegrindo o nome da FISIOTERAPIA?acho que isto por si vale muito.