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View Full Version : Parâmetros Programáveis



Vitor Azevedo
10-10-04, 13:38
Concentração de oxigênio no ar inspirado (FIO2)
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É recomendável que se inicie a ventilação mecânica com FIO2 = 1,0, procurando-se reduzir progressivamente este valor a concentrações mais seguras, objetivando uma FIO2 < 0,5. O ideal é manter uma FIO2 suficiente para obter uma SaO2 > 90 %, sem expor o paciente ao risco de toxicidade pelo oxigênio. Entretanto, em casos graves de SARA, com o objetivo de evitar altas concentrações de oxigênio, pode ser tolerada uma SaO2 > 85%.

Frequência respiratória
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A frequência respiratória deve ser ajustada de acordo com a PaCO2 e pH
desejados, e dependerá do modo de ventilação escolhido, da taxa metabólica, do nível de ventilação espontânea e do espaço morto. Em geral, recomenda-se a freqüência respiratória de 8-12 ipm, para a maioria dos pacientes estáveis. Deve-se ficar atento para o desenvolvimento de auto-PEEP com altas freqüências respiratórias, geralmente acima de 20 ipm.

Volume corrente
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Na ventilação mecânica volume controlado, o volume corrente (VT) é mantido
constante, sendo o fator de ciclagem do respirador. Um VT inicial de 10-12 ml/kg (baseando-se no peso ideal) é, geralmente, adequado. Ajustes subsequentes devem ser considerados, baseando-se inicialmente na pressão parcial de gás carbônico no sangue arterial (PaCO2). E, como já citado anteriormente, na SARA é recomendado o uso de VT de 5 a 8 ml/kg. A necessidade de ajustar o VT para se obter uma determinada PaCO2 deve-se às variações na produção do CO2 pelo paciente, principalmente, no volume do espaço morto. O espaço morto anatómico, durante a ventilação mecânica, é acrescido dos volumes da cânula traqueal, do circuito do respirador e do volume que se perde na distensão do circuito. Estes volumes variam entre os diferentes circuitos e podem levar à necessidade de ajustes no VT.
Além disso, durante a ventilação mecânica, pode-se aumentar o espaço morto
fisiológico, principalmente com grandes volumes correntes, em função da diminuição do retorno venoso e da hiperdistensão alveolar, com compressão de capilares pulmonares. Em algumas situações específicas, a normalização da PaCO2 não é o parâmetro para se ajustar o volume corrente. Em pacientes obstrutivos (asma e DPOC), volumes correntes menores podem ser necessários para evitar a hiperdistensão pulmonar, com consequente geração de auto-PEEP. Especificamente nos pacientes com DPOC com retenção crónica de CO2, o VT ajustado deve manter os níveis elevados de CO2 para que não se alterem os mecanismos de retenção de bicarbonato. A normalização da PaCO2 nesses pacientes promoverá a diminuição dos níveis de bicarbonato, sendo causa de acidose respiratória e dificuldade de retirada do suporte ventilatório, quando se tentar o desmame. Dessa forma, deve-se estar atento aos valores do pH arterial. Em pacientes com complacência pulmonar diminuída (principalmente na SARA), ao se ajustar o volume corrente, deve-se evitar a hiperdistensão alveolar. Embora haja
controvérsias, a manutenção da pressão de plateau abaixo de 35 cmH2O (ou 40 cmH2O em pacientes obesos, com ascite ou distensão abdominal, ou em outras condições de diminuição da complacência da parede torácica) constitui medida segura para se evitar esta hiperdistensão.

Fluxo inspiratório
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A importância da escolha do pico de fluxo inspiratório é diferente entre os ciclos assistidos e os ciclos controlados. Nos ciclos controlados, a escolha do pico de fluxo determinará a velocidade com que o volume corrente será ofertado, determinando, conseqüentemente, a relação inspiração/expiração, para aquela freqüência respiratória, e o pico de pressão nas vias
aéreas. Sendo assim, para um dado ajuste de volume corrente e freqüência respiratória, um maior pico de fluxo se correlaciona com o menor tempo inspiratório e maior pico de pressão nas vias aéreas. Nos ciclos controlados, um pico de fluxo entre 40 e 60 l/min é, em geral, suficiente, procurando-se manter a PIP < 40 cmH2O.Durante os ciclos assistidos, na escolha do pico de fluxo inspiratório, deve-se considerar também a demanda ventilatória do paciente. Um fluxo inspiratório insuficiente determina desconforto e maior trabalho respiratório para o paciente, em função da manutenção do esforço inspiratório ao longo da inspiração. Em função disso, o pico de fluxo inspiratório, nos ciclos controlados, necessitará ser maior, em geral entre 60 e 90 l/min. Outra possibilidade de evitar um maior trabalho respiratório pelo paciente, nos ciclos assistidos, é a combinação de um fluxo de demanda à modalidade volume controlada (VAPSV), conforme descrito por Bonassa e Amato.

Ondas de fluxo
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Os ventiladores, na modalidade volume controlado, podem ofertar o fluxo
inspiratório em quatro formas (onda de fluxo): quadrada (ou constante), sinusoidal, acelerada, desacelerada. As ondas de fluxo de padrão acelerado ou sinusoidal são menos utilizadas, não trazendo vantagens em relação às demais. Entre as duas ondas de fluxo mais frequentemente usadas, a quadrada e a desacelerada, concentram-se os principais estudos.
Em relação ao fluxo quadrado, o desacelerado apresenta menor pico de pressão nas vias aéreas e melhor distribuição da ventilação (diminuição do espaço morto fisiológico) quando o tempo inspiratório é mais prolongado. Não existem trabalhos que demonstrem, de forma definitiva, a superioridade de uma destas ondas de fluxo, desde que ajustadas para o mesmo volume corrente, a mesma relação entre tempo inspiratório e tempo total, e o mesmo fluxo médio.

Relação Inspiração: Expiração - I:E
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A relação I:E, durante respiração espontânea normal, é de 1:1,5 a 1:2 com tempo inspiratório de 0,8 a 1,2 s. Durante a ventilação mecânica, ela dependerá do volume corrente, da freqüência respiratória, do fluxo inspiratório e da pausa inspiratória. Em pacientes com obstrução do fluxo expiratório e hiperinsuflação, recomenda-se uma relação I:E < 1:3, objetivando aumento no tempo de exalação. Em pacientes hipoxêmicos, relações I:E mais próximas de 1:1 aumentam o tempo de troca alvéolocapilar,
trazendo, conseqüentemente, melhora na oxigenação. Uma relação I:E > 1:1 pode predispor ao desenvolvimento de auto-PEEP, embora possa melhorar a troca gasosa na hipoxemia refratária. Nos pacientes com síndrome hipoxêmica grave, podemos chegar a relações I:E = 3:1.

Sensibilidade
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A sensibilidade deve ser compreendida como o esforço despendido pelo paciente para disparar uma nova inspiração assistida pelo ventilador. O sistema de disparo por pressão é encontrado na maioria dos ventiladores, sendo recomendado o valor de -0,5 a -2,0 cmH2O. O sistema de disparo a fluxo pode ser encontrado em ventiladores mais novos, e parece proporcionar melhor interação com o paciente.

PEEP
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É a aplicação de uma pressão positiva supra atmosférica no final da expiração. Pode ser aplicada durante a ventilação mecânica ou a ventilação espontânea, sendo então chamada CPAPPEEP de 5cmH2O tem sido recomendada para manter a CRF e prevenir atelectasias durante a ventilação mecânica. A PEEP (3-8 cmH2O) tem sido usada recentemente para reduzir o limiar de carga inspiratória imposto pela auto PEEP, durante o disparo de uma ventilação espontânea, em pacientes com obstrução de vias aéreas. Deve-se ter muito cuidado com esses procedimentos, principalmente com níveis superiores a 5 cm H2O.
Inicia-se com valores de 3 a 5 cm H2O e aumenta-se progressivamente até uma oxigenação satisfatória ser atingida, o q pode ser definido com uma gasometria arterial realizada 20 minutos após cada alteração. Quando há níveis superiores a 10cmH2O, recomenda-se o uso de monitorização com cateter na artéria pulmonar.

In: Seminário sobre "Parâmetros do Ventilador e Modos Ventilatórios"
Autor: Ingrid Evelin Stainoff

Helder Fonseca
10-10-04, 15:33
Muito interessante este tema.

Fico feliz de saber que em Portugal existem pessoas com formação em ventilação mecânica.

Contudo tenho só um pequeno parêntesis a fazer:
Quando refere que no início a FiO2 deveria ser de 1,0, se quer dizer que deveria ser de 100%, permita-me então discordar:

Se a FiO2 for de 100% isto quer dizer que não há mistura de gases, logo a inexistência de azoto nos alvéolos irá criar um déficit em termos de pressão, causando consequentemente "micro-atelectasias", que diminuirão a PaO2.

Nestas situações será conveniente reduzir a FiO2 para valores mais baixos (apesar de não ter certeza absoluta, penso que será qualquer coisa entre 0,8 e 0,6, dependedo da situação), e aumentar a PEEP.

Apesar de não ter comigo a bibliografia necessária para comprovar esta teoria (deixei os apiontamentos do Prof. Roeseler na minha clínica:rolleyes: ), talvez possa traduzir uma parte que se reporta a esta situação em breve.

Espero também conseguir converter um artigo que tenho em minha casa sobre Heliox, para PDF, e colocar aqui no fórum para comentarmos. É uma técnica que na altura (2001) era considerada inovadora, e que prevê este tipo de situações.

Vitor Azevedo
10-10-04, 15:37
Caro colega,


Não posso deixar de concordar com a sua opinião. A concentração total poderia ter também efeitos nocivos a outros níveis, mas quanto à literatura que tenho (e irei confirmar e aqui expor) é referido mtas vezes com o início a 1,0. Creio que será mais a nível de teoria. Tenho todo o interesse em ver o que irá postar acerca dessa teoria, dado que sei pouco acerca dessa matéria.

Vitor Azevedo
10-10-04, 15:46
C. Absorption Atelectasis: In addition to 02 toxicity, Fi02 above 50% will increase the risk of alveolar collapse from all the gas in the alveoli leaving the air sac so that it collapses.
· Nitrogen while not used in the cellular metabolism does have a function in the body of keeping the alveoli open when the 02 leaves to enter the capillaries.

· As the Fi02 increases the Nitrogen decreases and the volume of the alveoli drop as 02 is diffused out of the alveoli.
· Nitrogen can be washed out of the lung in less than 30 minutes.
· Persons at most risk as those whose Vt is decreased such as post-op. Patients, sedated persons, or persons with CNS depression.
in: Lecture notes by Elizabeth Kelley Buzbee RRT RCP Perinatal Pediatric Specialist (http://kcweb.nhmccd.edu/programs/respcare/kelley.htm)


Heliox (helium com oxigénio) continua a ser, pelo que sei, inovador. A ideia de aceder à região alveolar usando um gás tão "leve" como o hélio é, aos meus olhos de "maçarico", uma ideia genial. Vou tentar postar mais informação sobre ambas as matérias.

Helder Fonseca
10-10-04, 15:48
Afinal não era entre os 0.6 e 0.8:redface:

Depois do estágio que fiz em Bruxelas nunca mais trabalhei na área, por isso estou um pouco enferrujado.

A desvantagem do héliox é a voz esganiçada:lol: .

Vitor Azevedo
10-10-04, 15:50
Ah, e esqueci-me de referir os casos em que a ideia do 100% é mesmo remover o nitrogénio a nível dos alvéolos, como em embolias aéreas. Estágio em bruxelas queria tb fazer... no centro notre-dame :)

Vitor Azevedo
10-10-04, 15:55
Conheço alguns políticos então que devem estar altamente adictos a heliox :P .... ou então não. :P

ftnunosilva
10-10-04, 16:22
Caros colegas....

dependendo da situação, ambos podem ter razão:
em casos de situações pós-cirurgia cardíaca ou pulmonar, por exemplo, pelo simples facto de se ter reduzido a área total de trocas alveolo-capilares provocado quer pelo pneumotorax induzido, quer pelo derrame pleural remanescente, será fundamental numa primeira fase fornecer o máximo de oxigénio possível para que as membranas "activas" tenham muito oxigénio para fornecer aos capilares que as perfundem....
por outro lado, em casos agudizados como na Infecção Pulmonar nos DPCO, ou nos casos de mal asmático, ou ainda na ARDS, por exemplo, aí sim, é necessário ter o cuidado de baixar rapidamente o FiO2, pois pretende-se, por um lado, que haja a activação por parte dos quimiorreceptores centrais njo sentido de detectarem o nível de O2 e dosearem a frequencia e a amplitude ventilatória em função desses sinais; Por outro lado e tal como o Viciouzzz disse, e muito bem, o FiO2 atmosférico é 21%, deixando cerca de 70% para a concentração do azoto. Este gás, ao não ser hidrossolúvel, permite ter uma acção anti-colapso dentro dos alvéolos, permitindo, assim, as trocas gasosas alveolo-capilares.... assim sendo, procura-se que o FiO2, nestes doentes com patologia agudizada seja o mais rapidamente possível inferior a 60%, de modo a aproximar-se do normal atmosférico, mas sempre tendo em conta os valores de gasimetria arterial.

Bom trabalho

Helder Fonseca
10-10-04, 16:40
A questão aqui é a utilização de 100%, que acho ser contra-indicado em todos os casos (talvez excepto o caso de embolias, como o Vítor referiu).

Como referi atrás será melhor talvez aumentar a PEEP, do que a FiO2, mesmo em casos de pós-cirúrgico (ou talvez especialmente nestes casos), onde o motivo da diminuição da PaO2 está relacionado com a compliance pulmonar, ou com problemas de expansibilidade pulmonar causadas por problemas pleurais.

Este é um factor de regulação que exige experiencia por parte do fisioterapeuta (que eu não tenho, mas que o meu colega Nuno tem), no entanto penso que a 100% (como foi referido no 1º post) será uma situação que não deverá ser utilizada.

ftnunosilva
10-10-04, 16:56
A PEEP, nestes doentes, tem que se aumentada com muito cuidado porque:


1- Aumentas as pressões (arterial; intracraneana; venosa central...);

2- Precisas que o doente consiga expirar o CO2 acumulado...


Todo paciente em ventilação mecânica deve ser mantido com uma PEEP mínima (entre 3 e 5 cmH20), visando restaurar a CRF a qual está reduzida pela insuficiência respiratória aguda e pela intubação traqueal.
Nos pacientes com insuficiência respiratória por doenças que comprometem o parênquima pulmonar (ex: pneumonia, edema agudo de pulmão), elevações progressivas da PEEP podem ser necessárias para melhorar a oxigenação e permitir a utilização de menores FIO2. Nesses pacientes, elevamos a PEEP de 2 em 2 cmH2O, com o objetivo de manter a FIO2 abaixo de 60%. À medida que elevamos a PEEP, devemos monitorizar a pressão arterial e o débito urinário do paciente, pois níveis altos de PEEP podem induzir à queda do débito cardíaco, sobretudo em pacientes hipovolémicos. Na impossibilidade de manter o paciente hemodinamicamente estável reduzimos a PEEP e elevamos a FIO2.
Nos pacientes com doenças obstrutivas, uma PEEP de 5cmH2O também deve ser mantida, pois ela reduz o trabalho respiratório, imposto pela hiperinsuflação, para que o paciente active o respirador.

Gonçalo Trafaria
10-10-04, 18:49
Levanto agora a questão que julgo ser pertinente.

Normalmente as UTI’s, ou UCI’s, como lhes queiram chamar, pela terminologia antiga ou mais recente, possuem protocolos específicos e internos para todas essas situações.

Gostava de levantar a discussão sobre a autonomia do Fisioterapeuta para modificar e trabalhar com estes parâmetros do ventilador. Sim, porque são uma mais valia no e para a eficácia do nosso trabalho.

A minha experiência nesta área vem de um curso de ventilação mecânica que fiz recentemente, mas já contava com experiência profissional na UCIC do Hospital São José e recentemente na UCI e UCDI do Hospital Garcia de Orta.

No primeiro hospital havia alguma liberdade para este trabalho, dada a elevada consideração e confiança nos conhecimentos e capacidades do Fisioterapeuta da unidade. No segundo hospital ainda há um caminho a percorrer, mas o trabalho faz-se é a caminhar.



Fico feliz por ter colegas a investir também nesta área.

Bem hajam

Helder Fonseca
10-10-04, 19:35
Gostava de levantar a discussão sobre a autonomia do Fisioterapeuta para modificar e trabalhar com estes parâmetros do ventilador. Sim, porque são uma mais valia no e para a eficácia do nosso trabalho.
Era um assunto que também me interessa: Saber até que ponto os fisioterapeutas (com devida formação) estão ou não "autorizados" a intervir no processo de regulação da ventilação mecânica.

O meu colega Nuno Silva poderá confirmar, que o serviço de Cuidados Intensivos do Hospital de St. Luc adoptava um sistema multidisciplinar (não só para isto), mas cabia maioritariamente ao Fisioterapeuta do respectivo serviço esta função.
Inclusive, o Fisioterapeuta com o qual estive a fazer estágio é considerado um especialista a nível mundial e desenvolve investigação nesta área.

Vitor Azevedo
10-10-04, 19:37
Podemos dar o exemplo dos fisioterapeutas brasileiros, que estão responsáveis pelo CPAP. Alguém me confirma a vinda do ft carlos azeredo para PT?

Gonçalo Trafaria
10-10-04, 19:43
Eu conto com o curso, o primeiro em realizado cá. Mentores de formação foram: Ft. José Clemente (grande profissional nesta área) e a Ft. Ângela Pereira.

ftnunosilva
10-10-04, 19:58
De uma coisa não tenho duvidas: a nível de ventilação não invasiva temos toda a autonomia que o nosso bom-senso permitir, quer estejamos a falar de CPAP, BiPAP, PAV, ventiladores a volume...

Relativamente à ventilação invasiva... aí as coisas estão mais complicadas! :cry: Internacionalmente, só conheço o sistema belga, onde a Equipa de Trabalho delega no Fisioterapeuta toda a programação inicial e evolução no desmame do ventilador. Cá em Portugal, nos Hospitais que conheço, são os Anestesistas que têm esta função... agora, vamos retirar essa função aos Srs. Drs? Duvido... Eventualmente, com muita paciencia, e com muita determinação, poderemos começar a trabalhar com eles para, num futuro mais ou menos próximo, terem confiança nas nossas capacidades e delegarem em nós essas funções...
Mas julgo que ainda vai demorar algum tempo, e apenas as competências de cada um quer técnicamente, quer a nível de conhecimentos, quer a nível de relacionamento com os Anestesistas poderão abrir portas para essa área...

Mas, como já disse, o melhor é começar a fazer amizades com os anestesistas, porque, em Portugal, é difícil chegar lá de outra maneira...:mad:

Vitor Azevedo
10-10-04, 20:00
Se forem anestesistas morenas de olhos verdes, assim até aos 30 anos, contem comigo para isso. :wink:

Gonçalo Trafaria
10-10-04, 20:06
Numa unidade que trabalhei (Hosp. São José) os médicos da unidade eram anestesistas, ou pelo menos um a tempo inteiro. Mas havia espaço para o Fisioterapeuta poder modificar os parâmetros dos ventiladores (ventilação invasiva), dada a competência do profissional.



No Garcia, a modificação dos parâmetros era feita sempre com supervisão médica no momento. Denote-se que aqui não havia anestesistas mas sim Intensivistas, especialidade médica esta que esta em expansão. Para se ser Intensivista têm que penar muito, passando ainda por Internistas.



A estes(as) é que nos devemos amigar :razz:

Helder Fonseca
10-10-04, 20:20
Se forem anestesistas morenas de olhos verdes, assim até aos 30 anos, contem comigo para isso. :wink:
Possa ser que as convençamos assim.

Contudo acho que o caminho passa um pouco pela travessia do deserto árido:wink:
Penso que isto irá necessitar de muita paciência por parte das pessoas que trabalhem em UCI's.

É necessário fazer formação e começar a convencer os médicos de que sonmos capazes de fazer este tipo de actividade.
É claro que no início poderemos estar um pouco a ser ridicularizados pelos médicos e outros profissionais de saúde, no início, mas com paciência e preserverança poderemos lá ir.

Tomemos o exemplo dos fisios de UK, que têm autonomia para fazerem não só isto, mas muito mais coisas.

Se conseguirmos pelo menos mudar a situação à nossa volta já seria muito bom, e com o tempo poderemos convencer que este tipo de situações são o caminho para a mutidisciplinariedade de que tanto se anseia nos serviços de saúde em Portugal, e que este tipo de situações poderão poupar inclusive muito tempo aos médicos (que poderão ser necessários para situações mais importantes) e dinheiro ao estado (discussão polémica).

Quanto às UCI's apesar de ter adorado o estágio e ser uma das áreas que sempre e fascinaram, não contem comigo para desenvolver esta área - I've turned to the dark side of the force (clínicas privadas):lol:

ftnunosilva
10-10-04, 23:18
e que este tipo de situações poderão poupar inclusive muito tempo aos médicos (que poderão ser necessários para situações mais importantes) e dinheiro ao estado (discussão polémica).

ahahahahahah!!!! Poupa a graxa para a vida real... Queres enganar quem?

Adérito Seixas
11-10-04, 00:48
Podemos dar o exemplo dos fisioterapeutas brasileiros, que estão responsáveis pelo CPAP. Alguém me confirma a vinda do ft carlos azeredo para PT?
Eu confirmo e fiz o curso com ele em Mem Martins e adorei. Em relação à autonomia eles estão já muito adiantados em relação a nós, o ventilador é um instrumento de trabalho deles hoje em dia mas nem sempre foi assim. Eles conseguiram isso após muita luta e "paciencia". Foram conseguindo isso gradualmente da seguine forma, sempre que o fisio achava que determinado parâmetro deveria ser alterado (para facilitar o seu trabalho, como por exemplo o valor da PEEP) chamava o médico para que fosse com ele ver o doente e expunha situação e pedia que alterasse o valor enquanto desempenhava o seu trabalho. Usto passava-se um, dois, três, quatro, cinco, seis dias até que o médico lhe dizia que fosse fazer ele sozinho e as coisas foram avançando assim... até ao ponto em que sencontram hoje, têm autonomia para usar o ventilador como instrumento de trabalho.

Em relação à PEEP mínima que se deve manter em todos os doentes em ventilação mecânica, embora se diga (Barbas, 2003) que o nível PEEP profilático seja entre 2-6 utiliza-se geralmente o PEEP5.
Ao utilizar um nível de PEEP12 (designado nível de recrutamento - pode ser mais de 12) estamos a recrutar alvéolos.
O fisioterapeuta pode "brincar" com estes valores de forma a conseguir os seus objectivos, por exemplo, pensemos num doente ventilado mecânicamente que necessita de Fisioterapia para higiene respiratória. O fisioterapeuta pode aumentar os valores da PEEP para 20-30 (não se assustem, é possível) durante 30 segundos, seguidamente reduz este valor para 3 e aspira. É claro que este procedimento deve ser sempre bem monitorizado, o fisio deve estar atento aos marcadores em vigilancia (isto só se faz se o paciente estiver hemodinâmicamente estável), etc... a PEEP pode ser uma grande amiga.

Adérito Seixas
11-10-04, 01:00
Frequência respiratória
----------------------
A frequência respiratória deve ser ajustada de acordo com a PaCO2 e pH
desejados, e dependerá do modo de ventilação escolhido, da taxa metabólica, do nível de ventilação espontânea e do espaço morto. Em geral, recomenda-se a freqüência respiratória de 8-12 ipm, para a maioria dos pacientes estáveis. Deve-se ficar atento para o desenvolvimento de auto-PEEP com altas freqüências respiratórias, geralmente acima de 20 ipm.
Em relação ao auto-PEEP ou PEEP intrínseco não devemos ficar atentos só à FR, devemos ficar atentos também ao diâmetro do tubo usado...

Helder Fonseca
11-10-04, 19:07
ahahahahahah!!!! Poupa a graxa para a vida real... Queres enganar quem?O que me tens a dizer então dos fisios em Inglaterra que vão poder começar a passar medicação (diz que o estado vai poupar um bons milhões)

Quanto ao dinheiro tenho que admitir que é uma afirmação algo polémica, mas quanto ao tempo...

Se já se diz que os médicos são poucos para tanto trabalho, se delegarem certo tipo de tarefas para outro tipo de profissionais de saúde irão poupar muito tempo nessas mesmas.

É tudo uma questão de multidisciplinariedade, na qual os médicos deveriam ter um papel central, mas não único ou mandatório. (afinal eles não são super-homens:lol: )

Vitor Azevedo
11-10-04, 20:33
Conheço alguns fisios que, em privada, como gabinetes, ou assim, têm medicamentos que utilizam, como, por exemplo, salbutamol. Não acho que seja criticável, por isso vejo toda a lógica nessa atitude de UK (que não conhecia...). Mas repito, creio que o bom senso é uma qualidade indispensável.

Adérito Seixas
11-10-04, 22:17
O que me tens a dizer então dos fisios em Inglaterra que vão poder começar a passar medicação (diz que o estado vai poupar um bons milhões)
Isso é verdade, para controlar os custos com a saúde o estado decidiu permitir a Fisioterapeutas e Enfermeiros prescreverem fármacos... mas só após o médico ter prescrito uma vez. Por exemplo, um doente vai ao médico e ele receita um anti-inflamatório, se for necessário continuar a terapia anti-inflamatória então o Fisio ou o Enf já podem prescrever. Mas se o Fisio decidir prescrever um anti-inflamatório a um desportista, por exemplo, não pode (só após o médico receitar uma vez).

ftnunosilva
12-10-04, 00:35
(huuuuuummmmmmmmmm) :question: e o Fisioterapeuta tenm autonomia para prolongar uma Terapia medicamentosa eternamente?!:question: Com que tipo de supervisão é que essa prescrição é feita?

Vitor Azevedo
12-10-04, 00:44
Não teremos bom senso e conhecimentos para gerir esse aspecto? Temos, I say.

ftnunosilva
12-10-04, 01:19
a minha questão não passa pelas nossas capacidades... mas já que falas nisso, não sei até que ponto a tua Farmacologia te permite estar bem preparado para dar resposta a este tipo de necessidades... e, por outro lado, essas decisões podem também depender de meios auxiliares de diagnóstico.... também prescrevem MAD?

O que eu queria dizer é que me parece muita fruta os médicos abdicarem disso...:doubt:

Adérito Seixas
12-10-04, 15:04
(huuuuuummmmmmmmmm) :question: e o Fisioterapeuta tenm autonomia para prolongar uma Terapia medicamentosa eternamente?!:question: Com que tipo de supervisão é que essa prescrição é feita?
Para que os Fisioterapeutas e Enfermeiros tenham conseguido essa capacidade foi necessária a introdução de bases fortes de farmacologia como é óbvio, a partir daí passaram a saber se é realmente necessário um fármaco ou não, se é necessário prolongar uma terapia ou não. MAs no caso de um asmático não achas pertinente?

Helder Fonseca
12-10-04, 18:54
É claro que isto é um assunto muito complexo.

Seria sempre pertinente que outros profissionais de saúde pudéssem administrar fármacos (com devida formação).

É claro que isso implica um investimentogrande (em formação), o que, dada a conjuntura económica é complicado, porque o governo está mais interessado em conteção do que em investimento.

No entanto a administração de medicamentos é até uma coisa que na minha opinião já nos devia ultrapassar. No entanto aqui a questão é para outro tipo de práticas para as quais outros profissionais de saúde poderiam estar habilitados (ou estão mas não teêm autorização), nomeadamente:

os MCD's
Serem agentes de primeiro contacto
A administração de ventiliação mecânica....
Mas acho que não nos deveriamos afastar muito deste último assunto que é a discussão actual.

P.S.: Já repararam que as discussões mais polémicas vão parar sempre a politiquices. talvez esteja na altura de criarmos um fórum só para isso:lol:

OOOOH Behave

Adérito Seixas
12-10-04, 22:41
Já têm o espaço off-topic. Tens razão helder, voltemos ao tema, Parâmetros programáveis.

Carlinha
18-11-04, 22:41
vou dizer uma coisa: sou formada há 12 anos, tendo vivido 10 em UTI... no início, somente íamos ao hospital atender e sair.... há 10 anos atrás, começamos uma rotina de plantão diurno e hoje, dificilmente se encontra um hospital que não tenha Fisioterapia 24 horas... sim, é verdade, Adérito, já comemos urubus e sapos, já tivemos que ouvir tb o que não queríamos e houve muita briga com a equipe de enfermagem (eles queriam que passássemos a montar o respirador, o que não concordamos).
Sabe a velha história do "é devagar, devagarinho"? Foi exatamente como disseste, nem todo intensivista aceitava que manipulássemos o respirador, e a base de muito curso e desbravamento de alguns Fisioterapeutas (dentre eles o Carlos Azeredo, a quem muito devemos pelos seus estudos e luta), e tb por acomodamento de alguns médicos, que observaram que era menos um dado para tomar conta, passamos a tomar a ventilação como nossa. Claro que numa UTI nenhuma decisão é tomada isoladamente, até porque decidimos tudo em "round's" com os rotinas médicos. Hoje em dia, participamos da IOT, instalamos parâmetrosventilatórios, recrutamos, desmamamos e extubamos. Ventilação não invasiva tb é do Fisioterapeuta, inclusive no sistema de "home-care".
Com relação aos valores de PEEP, digo a vc que usamos valor mínimo de 8 sem medo, e recrutamos com valores acima de 35. No edema agudo, PEEP de 15 sem medo de ser feliz...Há um trabalho na critical care, que diz que em verdade, a abertura do alvéolo colapsado, acontece com PEEP's acima de 16.
E existem de 3 a 4 modos de recrutamento: modo Lachman, modo Amato, modo PCV dinâmico e volume com clampeamento do TOT (este último, uma modalidade "tupiniquim" já que os bird's só chegam a 30.
E mais um detalhe: já falam em recrutamento com PEEP's em 60 !!!!
Com relação ao uso da PEEP em quadros pneumônicos, é discutido seu uso, em razão de aumentar a área de "shuntagem", já que o ar vai para onde tem maior facilidade.
Mas, vale a pena discutir isso tb.

MINHA MSG: A profissão da gente é linda demais... basta mostrarmos nosso valor, com respeito ao Paciente sem violarmos nossa moral que a gente chega lá.... Ter uma Ordem ou Conselho, ajudaria muito, já que tudo na vida é como "jogo do bicho: vale o que tá escrito".
Me desculpem, se por vezes pareço "intrometida", e saibam que não sou dona da verdade, mas gosto imensamente de partilhar o que sei e o que não sei.

uma beijoka a todos !

Adérito Seixas
18-11-04, 23:35
Com relação aos valores de PEEP, digo a vc que usamos valor mínimo de 8 sem medo, e recrutamos com valores acima de 35. No edema agudo, PEEP de 15 sem medo de ser feliz...Há um trabalho na critical care, que diz que em verdade, a abertura do alvéolo colapsado, acontece com PEEP's acima de 16.
E existem de 3 a 4 modos de recrutamento: modo Lachman, modo Amato, modo PCV dinâmico e volume com clampeamento do TOT (este último, uma modalidade "tupiniquim" já que os bird's só chegam a 30.
E mais um detalhe: já falam em recrutamento com PEEP's em 60 !!!!
Eu fiz um curso com o Carlos aqui em Portugal, adorei. Ele falou um pouco disso, o que para mim foi óptimo. Aprendi muito nesse fim-de-semana.

Vitor Azevedo
18-11-04, 23:53
Vou gostar imenso de ter por cá, cara colega. Espero longas conversas e muita aprendizagem para o lado de cá :)

Beijos, minha amiga.

Carlinha
20-11-04, 11:32
pois estou chegando dia 01/12... =)
beijokas a todos